Texto 1: A criação, «um palácio»

São João da Cruz e a criação

Leitura dos escritos de São João da Cruz

Texto 1: A criação, «um palácio»

Proposta para o encontro comunitário

1.    Leitura do texto.

2.    Um dos participantes, que terá preparado previamente a sua intervenção, apresenta o texto com a ajuda da ficha de leitura (e de outros materiais, se considerar necessário).

3.    Diálogo comunitário sobre o texto.

Seria conveniente fazer uma leitura e meditação pessoal do texto antes do encontro comunitário.

Introdução ao texto

É importante começar esta série de textos com um fragmento dos nove Romances: «In principio erat Verbum», compostos pelo nosso santo em 1577 durante o seu cativeiro na prisão de Toledo.

Este canto, escrito poucos dias antes do Natal, apresenta-nos toda uma teologia fundamental do pensamento de São João da Cruz sobre o mistério da criação, em estreita relação com o da encarnação redentora e, portanto, com o mistério da Natividade.

O carácter voluntariamente simples e de tom quase infantil deste texto (pois celebra a infância de Deus no Natal) não deve ocultar-nos a sua incomparável profundidade. Depois de descrever a vida e o conselho interior das três Pessoas divinas, São João da Cruz detém-se especialmente no diálogo entre o Pai e o Filho, diálogo que tem lugar no Espírito Santo e no qual é tomada a decisão comum de criar o mundo — o mundo visível e invisível, ou seja, os anjos, os seres humanos e o conjunto do cosmos.

Convém recordar que, em grego, a palavra cosmos pode significar também «ornamento» ou «decoração» (Romances 1, 2 e 3). No Romance 4, São João da Cruz apresenta-nos a criação como «um palácio para a esposa» (v. 5).

Esta esposa é a Igreja (anjos, santos e cosmos), mas mais particularmente Maria, em quem se realizam as núpcias místicas (Romances 8 e 9), pois Deus, em seu Filho, assumiu (desposou) a nossa própria carne, que faz parte do mistério da criação material (Romance 7).

Esta visão teológica tem as suas raízes na dos Padres da Igreja, que releem alegoricamente o relato do Génesis: «O homem deixará o seu pai e a sua mãe, unir-se-á à sua mulher e os dois serão uma só carne» (Gn 2,24).

Nesta interpretação alegórica, Cristo é entendido como o novo Adão, que se torna uma só carne com a sua mãe Maria, que se torna assim (misticamente) a nova Eva, que faz de toda a criação uma Esposa.

A criação material é, portanto, vista como um esplêndido «palácio», o «lugar» mariano das bodas (Romance 4,21). Maria e o cosmos formam juntos este «palácio» cuja beleza e bondade são sinal da beleza e bondade de Deus.

Esses desposórios são celebrados na encarnação, contemplada como prelúdio da dádiva da Eucaristia. De facto, para o nosso autor, antes da encarnação, o Filho é o alimento espiritual do Pai, o seu «pão» (Romance 3). Mas, após a encarnação, a Esposa — Maria — coloca no presépio (Romance 9) esse mesmo pão, agora material, feito carne, para o banquete nupcial no «palácio», ou seja, para a celebração eucarística na Igreja.

Esta teologia, ao mesmo tempo patrística e sanjoanina, sublinha o amor transbordante de Deus que se rebaixa até à materialidade, constitutiva da natureza humana e do cosmos físico.

É precisamente nesta dinâmica da sublimação da matéria que São João da Cruz prefere expressar-se através da poesia. A poesia — como a arte em geral — é a «encarnação» na matéria (através de sons, imagens, etc.) de um pensamento ou de uma intenção, à imagem do próprio ato criador e redentor de Deus.

Romance 3

Romance 3
«Uma esposa que te ame,
Meu Filho, dar-te queria,
Que por teu amor mereça
Ter a nossa companhia.
E comer pão numa mesa,
Do mesmo pão que Eu comia,
Para que conheça os bens
Que em tal Filho Eu possuía.
E comigo lhe compraza
Tua graça e louçania.
«Muito te agradeço, Pai,
– O Filho lhe respondia –;
À esposa que me deres
A minha luz eu daria
Para que por ela eu veja
O quanto meu Pai valia
E como o ser que possuo
Do seu ser o recebia.
Vou recliná-la em meu braço,
Teu amor a brasaria.
E tua eterna bondade
Com deleite exaltaria.

Romance 4

«Faça-se pois, disse o Pai,
Teu amor o merecia».
E neste dito que disse
O mundo criado havia.
Um palácio para a esposa
Feito em grã sabedoria,
O qual em dois aposentos,
Alto e baixo, dividia.
O baixo, de diferenças
Infinitas construía;
Mas o alto aformoseava
De admirável pedraria.
Para que conheça a Esposa
O Esposo que possuía,
Lá no alto colocava
A angélica hierarquia;
Mas a natureza humana
Era em baixo que a metia,
Por ser em seu ser composta
De algo de menor valia.
E embora o ser e os lugares
Deste modo os repartia,
Todos eles são um corpo
Da esposa que dizia:
Que o amor de um mesmo Esposo
Uma esposa os fazia.
Os de cima possuíam
Seu Esposo em alegria;
Os de baixo, na esperança
Em que a fé os infundia,
Dizendo que em dado tempo
Ele os engrandeceria.
E que essa sua baixeza
Ele lha levantaria
De maneira que ninguém
Jamais a insultaria,
Porque em tudo semelhante
Ele a eles se faria.
(…)

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Laudato Si’

LS 13. O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar. O Criador não nos abandona, nunca recua no seu projeto de amor, nem Se arrepende de nos ter criado. A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum. Desejo agradecer, encorajar e manifestar apreço a quantos, nos mais variados sectores da atividade humana, estão a trabalhar para garantir a proteção da casa que partilhamos. (…)

LS 61. Sobre muitas questões concretas, a Igreja não tem motivo para propor uma palavra definitiva e entende que deve escutar e promover o debate honesto entre os cientistas, respeitando a diversidade de opiniões. Basta, porém, olhar a realidade com sinceridade, para ver que há uma grande deterioração da nossa casa comum. A esperança convida-nos a reconhecer que sempre há uma saída, sempre podemos mudar de rumo, sempre podemos fazer alguma coisa para resolver os problemas. Todavia parece notar-se sintomas dum ponto de rutura, por causa da alta velocidade das mudanças e da degradação, que se manifestam tanto em catástrofes naturais regionais como em crises sociais ou mesmo financeiras, uma vez que os problemas do mundo não se podem analisar nem explicar de forma isolada. Há regiões que já se encontram particularmente em risco e, prescindindo de qualquer previsão catastrófica, o certo é que o atual sistema mundial é insustentável a partir de vários pontos de vista, porque deixamos de pensar nas finalidades da ação humana: «Se o olhar percorre as regiões do nosso planeta, apercebemo-nos depressa de que a humanidade frustrou a expectativa divina».

LS 69. Ao mesmo tempo que podemos fazer um uso responsável das coisas, somos chamados a reconhecer que os outros seres vivos têm um valor próprio diante de Deus e, «pelo simples facto de existirem, eles O bendizem e Lhe dão glória», porque «o Senhor Se alegra em suas obras» (Sl 104/103, 31). Precisamente pela sua dignidade única e por ser dotado de inteligência, o ser humano é chamado a respeitar a criação com as suas leis internas, já que «o Senhor fundou a terra com sabedoria» (Pr 3, 19). 

Perguntas:

1.    Porque é que São João da Cruz usa a imagem de um palácio para falar sobre a criação? O que quer expressar ele com essa metáfora?

2.    O que significa para o Papa Francisco a ideia de «casa comum»?

3.    Quais são as diferenças entre a visão espiritual de São João da Cruz e a visão ecológica da Laudato Si?

4. Podemos dizer que o «palácio» e a «casa comum» falam ambos da beleza da natureza?

5. Em que sentido estas duas imagens nos convidam a cuidar dela?

6. Como é que estas duas formas de falar da criação nos ajudam a mudar o nosso olhar sobre ela?