Ficha inicial: Apresentação

São João da Cruz e a criação

Leitura dos escritos de São João da Cruz

Ficha inicial: Apresentação

Introdução geral

Um único ano dedicado a São João da Cruz não nos permitiu ler as suas obras da mesma forma que fizemos no passado com Santa Teresa de Jesus e, mais tarde, com Santa Teresa do Menino Jesus. Este ano, propomos novamente uma leitura dos textos de São João da Cruz, mas com uma temática específica: a criação.

Desta forma, colocaremos em diálogo estes textos com fragmentos da encíclica Laudato Si do Papa Francisco. Esta proposta pode ser vista como uma forma de atualizar o pensamento de São João da Cruz em torno de um tema central: a ecologia.

As obras de São João da Cruz oferecem uma visão profundamente contemplativa e mística da criação. Nos seus escritos, a natureza aparece frequentemente como uma pegada do Amado, um reflexo discreto e velado de Deus, uma linguagem simbólica que fala à alma que busca o divino. No entanto, São João da Cruz insiste que não devemos apegar-nos às criaturas por si mesmas. Elas não são o fim e, se contempladas com fé, conduzem a Deus. O risco está em deixar-se distrair pela beleza das criaturas e deter-se nelas, o que pode tornar-se um obstáculo espiritual.

Para compreender bem a visão da criação em São João da Cruz, é necessário situá-la no conjunto da sua doutrina. O seu objetivo principal é a união com Deus. Esse é, em definitiva, o propósito de todos.

Longe de impedir essa busca, a criação é para ele a mediadora privilegiada. Tudo depende da nossa relação com ela. Fiel a toda a sua doutrina, São João da Cruz convida-nos a olhar para a criação com olhos de contemplação, fé, esperança e caridade, pois para ele a criação é antes de tudo um mistério que, ao revelar-se, nos revela o mistério de Deus, com quem desejamos unir-nos: «Creio em um só Deus, criador do céu e da terra…» (Credo).

A encíclica Laudato Si, publicada pelo Papa Francisco em 2015, amplia e atualiza esta tradição espiritual no contexto do mundo contemporâneo. Inscreve-se na mesma dinâmica de admiração e gratidão perante a criação, mas amplia o seu alcance: introduz uma dimensão social, ecológica e comunitária que os escritos de São João da Cruz abordam de forma menos direta.

Um dos pontos fortes da encíclica é lembrar que a criação é uma realidade viva, ferida e ameaçada. Laudato Si apela, assim, a uma conversão ecológica integral, que compromete o ser humano em todas as suas dimensões: a sua relação com Deus, com os outros, consigo mesmo e com a natureza.

A encíclica sublinha com força a ligação entre a fé cristã e o compromisso com a proteção da casa comum. Apresenta a criação não só como uma beleza a contemplar, mas também como uma responsabilidade a assumir e um bem comum a preservar.

Enquanto São João da Cruz insiste no desapego interior necessário para ver Deus além das coisas, Laudato Si convida a habitar o mundo com atenção, sobriedade e amor ativo, como expressão de uma fé encarnada.

Assim, Laudato Si não substitui o ensinamento de São João da Cruz, mas dá-lhe uma prolongação contemporânea, integrando a questão ecológica e social numa visão da criação como dom, mistério, chamamento e missão. Introduz a contemplação carmelita numa dinâmica missionária, solidária e fraterna, onde a louvor se torna ação e o amor ao Criador se traduz no cuidado da criação.

Por isso, percorreremos vários textos-chave de São João da Cruz sobre a criação. Cada um será acompanhado por uma introdução explicativa, seguida de um diálogo com trechos selecionados da Laudato Si e, finalmente, algumas perguntas para orientar a reflexão.

Fiéis ao modo de ensinar do próprio São João da Cruz, estas introduções e perguntas não são exaustivas nem restritivas: o leitor pode oferecer a sua própria compreensão e formular as suas próprias perguntas.

Para 2026, os textos selecionados são:

1.    A criação, «um palácio» (Romance 3; 4,1-38)

2.    A criação, um ícone (Cântico Espiritual B 5,1-4)

3.    A criação, uma «mensageira» (Cântico Espiritual B 4,1-7)

4.    A criação como quase-sacramento (Cântico Espiritual B 14-15,1-5.9.28-29)

5.    O «despertar» da criação (Chama de amor viva B 4,1-5.14-15)

6.    A criação tirada do nada (Subida do Monte Carmelo I, 4,1-4)

7.    A criação, um dom e não uma posse (Subida do Monte Carmelo III, 20,1-4)

8.    A criação, lugar da nossa libertação (Oração da alma apaixonada)