Ficha 7: A criação, um dom e não uma posse

São João da Cruz e a criação

Leitura dos escritos de São João da Cruz

Texto 7: A criação, um dom e não uma posse

Proposta para o encontro comunitário

1.    Leitura do texto.

2.    Um dos participantes, que terá preparado previamente a sua intervenção, apresenta o texto com a ajuda da ficha de leitura (e de outros materiais, se considerar necessário).

3.    Diálogo comunitário sobre o texto.

Seria conveniente fazer uma leitura e meditação pessoal do texto antes do encontro comunitário.

Introdução ao texto

Com o texto que se segue, entramos no célebre tema sanjoanista do «Nada – Tudo»: quem não se «apega» a «nada» encontra «tudo» em Cristo.

Este tema está em plena continuidade com os textos anteriores, que nos permitirão compreendê-lo melhor. Podemos recordar também o famoso «Monte Carmelo» que o santo desenhou após a sua fuga da prisão de Toledo. Para alcançar a união com Deus, propõe três caminhos possíveis:

  • à direita do monte, o «caminho da terra»;
  • à esquerda, o «caminho do céu»;
  • e, ao centro, o «caminho do nada».

Só este «caminho do nada» conduz à união com Deus.

Na realidade, trata-se de não nos apegarmos ao que é criado, o que pode significar, por um lado, a experiência afetiva ou sensível, em nós, da presença de Deus (caminho do céu) e, por outro, a experiência afetiva ou sensível que a nossa relação com o mundo nos proporciona (caminho da terra).

Não se trata de rejeitar essas experiências, mas — como já dissemos anteriormente — de nos servirmos desses dons criados como trampolim para nos orientarmos para o Doador. Deste modo, esses dons serão mais bem acolhidos, pois o facto de não nos prendermos a eles permite que se derramem em nós com maior abundância.

O facto de não nos apegarmos a «nada» permite-nos desfrutar de «tudo». Fechar a mão (o coração) sobre um dom do céu ou da terra é impedir-nos de receber tudo o que Deus quer dar-nos, isto é, toda a sua criação e Ele próprio.

No texto de São João da Cruz que se segue, deter-nos-emos exclusivamente na sua doutrina e nos seus conselhos relacionados com o dom da terra, tema da nossa reflexão.

Nele, o santo sublinha, antes de mais, que o desprendimento nos permite desfrutar melhor dos dons de Deus. Com efeito, o apego ou a idolatria em relação a uma determinada realidade criada atribui-lhe, na nossa vida, uma importância que ela, na verdade, não possui. A nossa relação com essa realidade impede-nos de a apreciar tal como ela deseja dar-se a nós, na verdade do seu ser.

É isto que, na continuação do texto, São João da Cruz designa por «julgar segundo os acidentes» (isto é, segundo as aparências deformadas pelas nossas projeções) e não «segundo a substância» (isto é, segundo a realidade que cada dom de Deus possui verdadeiramente). Como o texto sublinha, o apego torna-me escravo da criação, enquanto o desprendimento me torna livre para amar.

Assim, ao contrário de certas imagens que apresentam São João da Cruz como inimigo do mundo criado, vemos, na realidade, que ele é um verdadeiro promotor de uma fricção autêntica e livre da criação.

III SUBIDA DO MONTE CARMELO 20, 1-4

1.           O espiritual há de ter muito cuidado para que o coração e o gozo não se comecem a apegar às coisas temporais. Lembre-se de que, de grau em grau, pode começar por pouco e acabar em muito. Do pouco chega-se a muito, e um pequeno começo pode acabar em coisa grande. Basta uma faúlha de fogo para queimar um monte e o mundo inteiro. Nunca se fie do pequeno apego, porque, se não o eliminar logo, não julgue que o fará depois. Se, quando é pequeno e está a começar, não tem coragem para o eliminar, como julga e presume que o fará quando for grande e enraizado? Lembre-se de que nosso Senhor diz no Evangelho que quem é infiel no pouco, também o será no muito (Lc 16, 10). Quem evitar o pouco, não cairá no muito. Mesmo no pouco já há muito dano, porque o coração já está muito preso e amuralhado. É como diz o ditado: O trabalho começado está meio acabado[1]. É por isso que David nos alerta ao dizer: Se as vossas riquezas crescerem, não lhes entregueis o coração (Sl 61, 11).

2.           E ainda que o homem não fizesse isso pelo seu Deus e por aquilo a que o obriga a perfeição cristã, deveria libertar totalmente o seu coração de todo o gozo de que se falou, por causa dos benefícios temporais e espirituais que lhe advêm. Desta maneira, não se livra apenas dos pestíferos danos de que falámos no capítulo anterior, mas, retirando o gozo dos bens temporais, adquire a virtude da liberalidade, que é um dos principais atributos de Deus. E, de modo algum, ela se pode possuir pela ganância.

Juntamente com ela, adquire a liberdade de espírito, a lucidez da razão, o sossego, a tranquilidade, a confiança pacífica em Deus, o culto e o verdadeiro oferecimento da vontade a Deus.

O gozo e o prazer das criaturas aumentam mais desprendendo-se delas do que se olhar para elas com o desejo de as possuir. Este é um cuidado a ter porque, como um laço, amarra o espírito à terra e não lhe deixa ter o coração livre.

Pelo desapego das coisas adquire um conhecimento mais perfeito das mesmas e, tanto natural como sobrenaturalmente, entende melhor a verdade que elas contêm. Assim, goza-as de uma forma bem diferente, com mais vantagens e excelências do que aquele que está apegado a elas. Este saboreia-as conforme a verdade que têm, o outro conforme a mentira. Um, quanto ao melhor; outro, quanto ao pior. O primeiro, segundo a substância; o outro, o que tem preso nelas os sentidos, segundo os acidentes, pois os sentidos só podem receber e atingir o que é acidental, enquanto o espírito, purificado das trevas e formas acidentais, penetra na verdade e no valor das coisas, que é o seu objeto. O gozo obscurece a mente como a nuvem, porque a vontade não pode gozar das criaturas sem as possuir, tal como não há gozo de paixão sem a posse habitual no coração. A negação e a purificação deste gozo limpam a mente, tal como a atmosfera se limpa quando os vapores se dissipam.

3.           O primeiro, ao não ter o gozo preso nelas, goza todas as coisas como se as possuísse; o segundo, como olha para elas com um particular desejo de as possuir, perde o gosto de todas elas em geral. O primeiro, parecendo não ter nenhuma delas no coração, tem-nas todas com grande liberdade, como diz S. Paulo (2 Cor 6, 10). O segundo, porque tem a vontade um pouco presa a elas, não tem nem possui nada. Ao contrário, elas é que lhe roubam o coração e, por isso, como cativo, pena. Daqui se conclui, portanto, que aos gozos que quiser ter nas criaturas, hão de necessariamente corresponder outras tantas aflições e penas do seu preso e apossado coração.

A quem está desprendido, as preocupações não o apoquentam nem na oração nem fora dela. Sem perda de tempo, granjeia facilmente muitos bens espirituais. O outro, porém, passa o tempo a dar voltas e mais voltas ao laço que lhe ata e aperta o coração, conseguindo libertar-se apenas por uns momentos deste laço do pensamento e do gozo ao qual tem preso o coração.

Portanto, o espiritual, ao primeiro movimento, quando o gozo lhe foge para as coisas, deve reprimi-lo, lembrando-se do propósito que aqui expomos. Quer dizer, o homem não deve gozar nada que não seja para servir a Deus e procurar a Sua honra e glória em todas as coisas, orientando-as só para isto, e nelas afastar-se da vaidade, não se atendo ao seu gosto e consolação.

4.           Ao desapegar o gozo das criaturas recebe um grande e primordial benefício: ficar com o coração livre só para Deus. É um princípio necessário para receber todas as graças que Deus lhe queira conceder. Sem esta disposição não lhas concede. E são de tal ordem que, se abandonar um gozo pelo Seu amor e pela perfeição do Evangelho, dar-lhe-á, até em bens temporais, cem por um nesta vida, como promete Sua Majestade no próprio Evangelho (Mt 19, 29).

E ainda que não fosse por estes motivos, mas só pelo desgosto que se dá a Deus com estes gozos das criaturas, o espiritual deveria extingui-los na sua alma. Como se pode ver no Evangelho, só por aquele rico gozar de bens para muitos anos, Deus indignou-se tanto, que lhe disse que, nessa mesma noite, a sua alma iria ser chamada a prestar contas (Lc 12, 20). Daqui concluímos que sempre que gozarmos de uma maneira vã, Deus está a olhar e a decretar algum castigo ou momento amargo conforme se mereça. Por vezes, o tormento que o gozo provoca é cem vezes maior do que o gozo recebido. É o que S. João diz no Apocalipse (Ap 18, 7) acerca de Babilónia: Na mesma medida em que ela gozou da glória e do luxo, assim sejam o seu tormento e luto. Ele não diz isso para afirmar que o tormento vai ser maior que o gozo, porque sê-lo-á, uma vez que em troca de ligeiros prazeres dão-se eternos tormentos. O que ele pretende manifestar é que nada ficará sem castigo, porque Aquele que há de castigar a palavra inútil (Mt 12, 36) não perdoará o gozo vão.

LAUDATO SI’:

LS 2. Esta irmã clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. A violência, que está no coração humano ferido pelo pecado, vislumbra-se nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos. Por isso, entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que «geme e sofre as dores do parto» (Rm 8, 22). Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra (cf. Gn 2, 7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos.

LS 5.  São João Paulo II debruçou-se, com interesse sempre maior, sobre este tema. Na sua primeira encíclica, advertiu que o ser humano parece «não dar-se conta de outros significados do seu ambiente natural, para além daqueles que servem somente para os fins de um uso ou consumo imediatos». Mais tarde, convidou a uma conversão ecológica global. Entretanto fazia notar o pouco empenho que se põe em «salvaguardar as condições morais de uma autêntica ecologia humana» A destruição do ambiente humano é um facto muito grave, porque, por um lado, Deus confiou o mundo ao ser humano e, por outro, a própria vida humana é um dom que deve ser protegido de várias formas de degradação. Toda a pretensão de cuidar e melhorar o mundo requer mudanças profundas «nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades». O progresso humano autêntico possui um carácter moral e pressupõe o pleno respeito pela pessoa humana, mas deve prestar atenção também ao mundo natural e «ter em conta a natureza de cada ser e as ligações mútuas entre todos, num sistema ordenado». Assim, a capacidade do ser humano transformar a realidade deve desenvolver-se com base na doação originária das coisas por parte de Deus.

LS 6. O meu predecessor, Bento XVI, renovou o convite a «eliminar as causas estruturais das disfunções da economia mundial e corrigir os modelos de crescimento que parecem incapazes de garantir o respeito do meio ambiente». Lembrou que o mundo não pode ser analisado concentrando-se apenas sobre um dos seus aspetos, porque «o livro da natureza é uno e indivisível», incluindo, entre outras coisas, o ambiente, a vida, a sexualidade, a família, as relações sociais. É que «a degradação da natureza está estreitamente ligada à cultura que molda a convivência humana». O Papa Bento XVI propôs-nos reconhecer que o ambiente natural está cheio de chagas causadas pelo nosso comportamento irresponsável (…)

LS 67. Não somos Deus. A terra existe antes de nós e foi-nos dada. Isto permite responder a uma acusação lançada contra o pensamento judaico-cristão: foi dito que a narração do Génesis, que convida a «dominar» a terra (cf. Gn 1, 28), favoreceria a exploração selvagem da natureza, apresentando uma imagem do ser humano como dominador e devastador. Mas esta não é uma interpretação correta da Bíblia, como a entende a Igreja. Se é verdade que nós, cristãos, algumas vezes interpretámos de forma incorreta as Escrituras, hoje devemos decididamente rejeitar que, do facto de ser criados à imagem de Deus e do mandato de dominar a terra, se deduza um domínio absoluto sobre as outras criaturas. É importante ler os textos bíblicos no seu contexto, com uma justa hermenêutica, e lembrar que nos convidam a «cultivar e guardar» o jardim do mundo (cf. Gn 2, 15). Enquanto «cultivar» quer dizer lavrar ou trabalhar um terreno, «guardar» significa proteger, cuidar, preservar, velar. Isto implica uma relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza. Cada comunidade pode tomar da bondade da terra aquilo de que necessita para a sua sobrevivência, mas tem também o dever de a proteger e garantir a continuidade da sua fertilidade para as gerações futuras. Em última análise, «ao Senhor pertence a terra» (Sl 24/23, 1), a Ele pertence «a terra e tudo o que nela existe» (Dt 10, 14). Por isso, Deus proíbe-nos toda a pretensão de posse absoluta: «Nenhuma terra será vendida definitivamente, porque a terra pertence-Me, e vós sois apenas estrangeiros e meus hóspedes» (Lv 25, 23).

LS 115. O antropocentrismo moderno acabou, paradoxalmente, por colocar a razão técnica acima da realidade, porque este ser humano «já não sente a natureza como norma válida nem como um refúgio vivente. Sem se pôr qualquer hipótese, vê-a, objetivamente, como espaço e matéria onde realizar uma obra em que se imerge completamente, sem se importar com o que possa suceder a ela».[92] Assim debilita-se o valor intrínseco do mundo. Mas, se o ser humano não redescobre o seu verdadeiro lugar, compreende-se mal a si mesmo e acaba por contradizer a sua própria realidade. «Não só a terra foi dada por Deus ao homem, que a deve usar respeitando a intenção originária de bem, segundo a qual lhe foi entregue; mas o homem é doado a si mesmo por Deus, devendo por isso respeitar a estrutura natural e moral de que foi dotado»

LS 116. Nos tempos modernos, verificou-se um notável excesso antropocêntrico, que hoje, com outra roupagem, continua a minar toda a referência a algo de comum e qualquer tentativa de reforçar os laços sociais. Por isso, chegou a hora de prestar novamente atenção à realidade com os limites que a mesma impõe e que, por sua vez, constituem a possibilidade dum desenvolvimento humano e social mais saudável e fecundo. Uma apresentação inadequada da antropologia cristã acabou por promover uma conceção errada da relação do ser humano com o mundo. Muitas vezes foi transmitido um sonho prometeico de domínio sobre o mundo, que provocou a impressão de que o cuidado da natureza fosse atividade de fracos. Mas a interpretação correta do conceito de ser humano como senhor do universo é entendê-lo no sentido de administrador responsável.

Perguntas:

1. São João da Cruz adverte para o perigo de procurar satisfação ou luz nas criaturas, em vez de as procurar no próprio Deus.

  • Como pode esta atitude espiritual ajudar-nos a ver a criação não como um bem a explorar, mas como um dom gratuito a acolher com fé?
  • De que modo a ascese proposta por São João da Cruz pode tornar-se uma fonte espiritual capaz de sustentar uma verdadeira ecologia integral, tal como propõe a Laudato Si’?
  • O que significa realmente «receber a criação como um dom»? Como é que isso transforma a nossa maneira de a contemplar, de a utilizar ou até de falar dela nas nossas comunidades?

2. No terceiro livro da Subida do Monte Carmelo (cap. 20), São João da Cruz afirma que a posse desordenada das coisas obscurece a alma. A Laudato Si’ (n.º 115) critica uma mentalidade de domínio sobre a natureza.

  • Em que medida a posse material se torna também uma forma de dominação interior?
  • E como nos podemos libertar dela?

3. São João da Cruz convida a «não se apropriar de nada», nem sequer dos dons espirituais.

  • Como pode aplicar-se concretamente esta lógica do desprendimento à nossa relação com a criação nos dias de hoje?

4. Como viver, numa comunidade religiosa, um estilo de vida sóbrio, contemplativo e comprometido?

  • Que critérios oferecem ambos os textos para refletirmos sobre a nossa maneira de consumir, de rezar, de nos comprometermos e de habitar o mundo?

[1] André da Encarnação remete este provérbio popular para ERASMO, Adag. F. 4 (ms. 3653).