Ficha 5: O «despertar» da criação

São João da Cruz e a criação

Leitura dos escritos de São João da Cruz

Texto 5: O «despertar» da criação

Proposta para o encontro comunitário

1.    Leitura do texto.

2.    Um dos participantes, que terá preparado previamente a sua intervenção, apresenta o texto com a ajuda da ficha de leitura (e de outros materiais, se considerar necessário).

3.    Diálogo comunitário sobre o texto.

Seria conveniente fazer uma leitura e meditação pessoal do texto antes do encontro comunitário.

Introdução ao texto

O texto que se segue é como um resumo concentrado dos anteriores, mas elevado a uma altura teológica, espiritual e poética admirável.

Está extraído de A Chama de Amor Viva, onde o orante, como a sarça ardente de Moisés, experimenta que ele mesmo e toda a criação são incendiados pelo fogo do Espírito Santo sem serem destruídos. Pelo contrário, ambos — a pessoa e a criação — são levados pelo impulso do «despertar» (a ressurreição) de Cristo, o Esposo, que sopra, como um homem ao despertar, o Espírito Santo.

Para compreender bem este texto sublime, convém recordar que São João da Cruz fundamenta os seus cânticos e a sua doutrina na sua leitura pessoal dos Padres da Igreja, especialmente na sua leitura alegórica do episódio de Moisés e da sarça ardente.

Essa leitura patrística é a seguinte:

▷ Moisés, que tinha sido filho adotivo da filha do faraó e, portanto, príncipe, vê-se obrigado a fugir para o deserto, onde se torna pastor ao serviço de um rico proprietário.

▷ Moisés desce completamente na escala social. Sabemos, pela história de José vendido pelos seus irmãos, que o ofício de pastor era desprezado pelos egípcios.

▷ Assim, numa situação de extrema pobreza — a condição de pastor, a nudez do deserto e a insignificância de uma sarça — Deus revela-se a Moisés.

Essa pobreza não é destruída pela presença divina, mas assumida e amada, pois a sarça em chamas não se consome.

Nesta teofania[AL1] , no meio da pobreza de um arbusto, os Padres da Igreja viram sucessivamente:

• Maria, cuja virgindade não é destruída pelo fogo do Espírito Santo, mas assumida por Ele no mistério da encarnação;

• a Eucaristia, cujas espécies de pão e vinho não são destruídas pelo fogo do Espírito Santo, mas transubstanciadas por Ele;

• e, naturalmente, o próprio Cristo, não destruído, mas ressuscitado pelo Espírito Santo.

Viram também na sarça a nossa alma, a pessoa orante, que não é destruída pela presença do fogo de amor do Espírito Santo, mas transformada nesse mesmo fogo de amor.

É precisamente esta última interpretação que São João da Cruz desenvolve no seu poema e comentário de A Chama de Amor Viva, de onde provêm os fragmentos que se seguem.

Neste poema de apenas quatro estrofes, o santo sublinha primeiro que a «chama de amor fere o mais profundo da alma» (ChB 1,1-3) e que «já não é amarga» (ChB 1,4). Essa ausência de amargura indica que a purificação espiritual chegou ao seu termo: a alma, nova sarça, não é destruída, mas transformada pelo fogo do Espírito Santo, que já não encontra nela resistência («amargura») ao seu amor, pois agora pode agir até ao «mais profundo centro da alma» (ChB 1,3).

Os versos e comentários que se seguem para a nossa meditação são tirados da estrofe 4. Esta última canta como, uma vez que o Espírito Santo pode agir livremente na alma, esta, no fogo do Espírito, experimenta a presença de Cristo ressuscitado, nova sarça «desperta» (ressuscitada) por esse mesmo Espírito.

Mas como este despertar espiritual de Cristo na alma é ao mesmo tempo o despertar do Verbo Criador, no seu comentário São João da Cruz sublinha admiravelmente que é também o despertar de toda a criação. Ao dar-se à alma — à pessoa na sua interioridade orante — o Verbo encarnado dá-lhe ao mesmo tempo toda a criação.

CHAMA DE AMOR VIVA B 4 1-5, 14-15

Quão manso e amoroso
Acordas em meu seio
Onde em segredo tu sozinho moras!
E nesse aspirar gostoso,
De bem e glória cheio,
Quão delicadamente me enamoras!

EXPLICAÇÃO

1. Aqui, a alma volta-se para o seu Esposo com amor ardente, manifestando o seu apreço e agradecimento por dois efeitos admiráveis que por vezes lhe provoca por meio desta união. Ao mesmo tempo refere o modo como Ele realiza cada um deles e o efeito que neste caso nela resulta.

2. O primeiro efeito é o acordar de Deus na alma. O modo como o faz é cheio de mansidão e amor.

O segundo é a aspiração de Deus na alma, e o seu modo consiste no bem e na glória que se lhe comunica na aspiração. E tudo isso é para enamorar a alma com delicadeza e ternura.

3. Assim, é como se dissesse: Oh Verbo Esposo, tu acordas no centro e fundo da minha alma, – que é a sua íntima e pura substância –, onde, em segredo, tu sozinho moras como seu único senhor! Não é só em sua casa, nem no teu próprio leito, mas é também no meu próprio seio que, em íntima e profunda união, acordas mansa e amorosamente; isto é, quão manso e amoroso! E nesse aspirar gostoso, que o teu despertar me oferece tão saboroso, porque cheio de bem e glória, quão delicadamente me enamoras e afeiçoas a Ti!

Nisto a alma assemelha-se àquele que, quando desperta do sono, aspira. Pelo menos é o que ela aqui sente. Segue-se o verso:

Quão manso e amoroso acordas em meu seio.

4. Deus tem muitas maneiras de acordar na alma. São tantas que, se nos puséssemos a contá-las, nunca terminaríamos. Mas este acordar que a alma quer dar aqui a entender, e que o Filho de Deus lhe faz, é, a meu ver, dos mais elevados e dos que maior bem causam à alma. Este acordar é um movimento que o Verbo origina na substância da alma, com tanta grandeza, majestade e glória, e de tão íntima suavidade, que a alma julga que todos os perfumes, espécies odoríferas e flores do mundo inteiro se agitam e abanam, movendo-se de um lado para o outro para exalar a sua suavidade, e que todos os reinos e senhorios do mundo, e todas as potestades e virtudes do céu se movem. E não só isto, porque também lhe parece que todas as virtudes, substâncias, perfeições e graças de todas as coisas criadas reluzem e fazem em uníssono o mesmo movimento.

Como diz S. João, por Ele é que tudo começou a existir (Jo 1, 3-4) e é n’Ele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos (At 17, 28). Daí que, movendo-se na alma este grande Imperador, cuja soberania, como diz Isaías, tem sobre os seus ombros (Is 9, 6), – refere-se aos reinos celeste, terrestre e infernal (cf. Fl 2, 10) bem como às coisas que neles existem –, e que sustenta com a sua palavra poderosa, como diz S. Paulo (Heb 1, 3), parece que tudo se move ao mesmo tempo. Isto assemelha-se ao movimento da terra em que as coisas materiais que nela existem se movem como se nada fossem. O mesmo acontece quando este Príncipe se move, porque é Ele quem carrega a corte e não a corte a ele.

5. Esta comparação, no entanto, não é muito apropriada, visto que aqui não só parecem mover-se, mas também todos mostram as belezas do seu ser, as virtudes, formosura e graças, e a raiz da sua duração e vida. É ali que a alma começa a perceber que é n’Ele que todas as criaturas do céu e da terra têm a sua vida, duração e poder. Então compreende claramente o que diz o livro dos Provérbios: Por mim reinam os reis, e os legisladores decretam a justiça; por mim governam os príncipes e os nobres dão sentenças justas (Pr 8, 15-16). E embora seja verdade que a alma vê ali que estas coisas são diferentes de Deus, porque são seres criados, e que todas têm n’Ele a força, a origem e o vigor, sabe perfeitamente que Deus, na sua infinita majestade, é todas estas coisas no Seu ser, por isso conhece-as melhor no ser de Deus do que no delas.

Eis o grande gozo deste acordar: conhecer as criaturas por Deus, e não a Deus pelas criaturas; ou seja, conhecer os efeitos pela sua causa e não a causa pelos efeitos. Este seria um conhecimento subsequente enquanto o primeiro é essencial.

(…)

Onde em segredo tu sozinho moras.

14. Diz que mora em segredo no seu seio porque, como dissemos, este doce abraço dá-se na íntima substância da alma.

De facto, Deus mora, secretamente e encoberto, na substância de todas as almas, porque, se assim não fosse, elas não poderiam viver.

Existe, contudo, uma grande diferença neste morar: numas mora sozinho e noutras não; numas mora contente e noutras não; numas mora como em sua casa, onde manda e tudo governa, enquanto noutras mora como um desconhecido em casa alheia, onde não O deixam mandar nem fazer nada.

A alma em que menos apetites e gostos próprios moram é onde Ele mais sozinho, mais contente, mais como em sua casa mora, regendo-a e governando-a; e tanto mais em segredo mora quanto mais só estiver.

E assim, nesta alma, onde já não mora qualquer apetite, imagem ou forma, nem afetos de coisa criada, o Amado mora muito em segredo, porque, como dissemos, quanto mais pura e vazia de tudo o que não é Deus, tanto mais íntimo, profundo e apertado é o abraço. E mora em segredo porque o demónio não pode chegar a este lugar e a este abraço, nem o entendimento do homem sabe como é.

Só não é em segredo para a alma que chegou a esta perfeição, pois ela sente em si este abraço íntimo. Mas nem sempre, pois quando o Amado a acorda assim, a alma julga que é Ele que acorda no seu seio onde antes estava como que adormecido. Embora O sentisse e gozasse antes, era como se o Amado estivesse a dormir um sono; e, quando um dos dois está a dormir, a inteligência e o amor de ambos não se comunicam até que acordem ambos.

15. Oh, quão ditosa é a alma que sente sempre estar Deus a descansar e a repousar no seu seio! Oh, como lhe convém afastar-se das coisas, fugir de ocasiões e viver em grande tranquilidade, para que nem mesmo com a mais leve aresta ou ruído inquiete e agite o seio do Amado!

Geralmente Ele está lá como adormecido neste abraço com a Esposa, na substância da sua alma, e que ela muito bem sente e habitualmente goza. Se Ele estivesse sempre acordado, em comunicação contínua de notícias e amores, já seria estar na glória. Pois, se daquela vez que acorda um bocadinho, abrindo os olhos, põe assim a alma, como temos descrito, então que seria se permanecesse no seu íntimo continuamente acordado para ela?

LAUDATO SI’:

LS 80. Apesar disso, Deus, que deseja atuar connosco e contar com a nossa cooperação, é capaz também de tirar algo de bom dos males que praticamos, porque «o Espírito Santo possui uma inventiva infinita, própria da mente divina, que sabe prover a desfazer os nós das vicissitudes humanas mais complexas e impenetráveis». De certa maneira, quis limitar-Se a Si mesmo, criando um mundo necessitado de desenvolvimento, onde muitas coisas que consideramos males, perigos ou fontes de sofrimento, na realidade fazem parte das dores de parto que nos estimulam a colaborar com o Criador. Ele está presente no mais íntimo de cada coisa sem condicionar a autonomia da sua criatura, e isto dá lugar também à legítima autonomia das realidades terrenas. Esta presença divina, que garante a permanência e o desenvolvimento de cada ser, «é a continuação da ação criadora». O Espírito de Deus encheu o universo de potencialidades que permitem que, do próprio seio das coisas, possa brotar sempre algo de novo: «A natureza nada mais é do que a razão de certa arte – concretamente a arte divina – inscrita nas coisas, pela qual as próprias coisas se movem para um fim determinado. Como se o mestre construtor de navios pudesse conceder à madeira a possibilidade de se mover a si mesma para tomar a forma da nave».

LS 220. Esta conversão comporta várias atitudes que se conjugam para ativar um cuidado generoso e cheio de ternura. Em primeiro lugar, implica gratidão e gratuidade, ou seja, um reconhecimento do mundo como dom recebido do amor do Pai, que consequentemente provoca disposições gratuitas de renúncia e gestos generosos, mesmo que ninguém os veja nem agradeça. «Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita (…); e teu Pai, que vê o oculto, há de premiar-te» (Mt 6, 3-4). Implica ainda a consciência amorosa de não estar separado das outras criaturas, mas de formar com os outros seres do universo uma estupenda comunhão universal. O crente contempla o mundo, não como alguém que está fora dele, mas dentro, reconhecendo os laços com que o Pai nos uniu a todos os seres. (…)

LS 225. Por outro lado, ninguém pode amadurecer numa sobriedade feliz, se não estiver em paz consigo mesmo. E parte duma adequada compreensão da espiritualidade consiste em alargar a nossa compreensão da paz, que é muito mais do que a ausência de guerra. A paz interior das pessoas tem muito a ver com o cuidado da ecologia e com o bem comum, porque, autenticamente vivida, reflete-se num equilibrado estilo de vida aliado com a capacidade de admiração que leva à profundidade da vida. A natureza está cheia de palavras de amor; mas, como poderemos ouvi-las no meio do ruído constante, da distração permanente e ansiosa, ou do culto da notoriedade? Muitas pessoas experimentam um desequilíbrio profundo, que as impele a fazer as coisas a toda a velocidade para se sentirem ocupadas, numa pressa constante que, por sua vez, as leva a atropelar tudo o que têm ao seu redor. Isto tem incidência no modo como se trata o ambiente. Uma ecologia integral exige que se dedique algum tempo para recuperar a harmonia serena com a criação, refletir sobre o nosso estilo de vida e os nossos ideais, contemplar o Criador, que vive entre nós e naquilo que nos rodeia e cuja presença «não precisa de ser criada, mas descoberta, desvendada».

LS 225. Falamos aqui duma atitude do coração, que vive tudo com serena atenção, que sabe manter-se plenamente presente diante duma pessoa sem estar a pensar no que virá depois, que se entrega a cada momento como um dom divino que se deve viver em plenitude. Jesus ensinou-nos esta atitude, quando nos convidava a olhar os lírios do campo e as aves do céu, ou quando, na presença dum homem inquieto, «fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele» (Mc 10, 21). De certeza que Ele estava plenamente presente diante de cada ser humano e de cada criatura, mostrando-nos assim um caminho para superar a ansiedade doentia que nos torna superficiais, agressivos e consumistas desenfreados.

Perguntas:

  1. Por que insiste o Papa Francisco em que a crise ecológica é também uma crise espiritual (Laudato Si’ n. 80 e 220)?
  2. Como ressoa isso na teologia de São João da Cruz?
  3. Em Chama de Amor Viva, o amor divino consome o egoísmo: como é que isso pode inspirar um amor mais responsável pela terra (Laudato Si’ n. 226)?
  4. Tanto a contemplação mística (Chama de Amor Viva) quanto a ecologia integral (Laudato Si’) supõem docilidade ao Espírito Santo. Como discernir a sua ação para agir com coerência?
  5. E como evitar que a oração e a união com Deus se tornem uma evasão, em vez de uma força motriz para proteger a criação?
  6. Diálogo a partir dos nossos votos (nossas promessas para a OCDS – Ordem dos Carmelitas Descalços Seculares):

Como é que a nossa pobreza religiosa, vivida sob o impulso do Espírito, pode ser um testemunho profético face ao consumismo destruidor?

Em que medida a nossa castidade consagrada, fruto do Espírito, nos permite viver uma relação mais livre e respeitosa com a criação?

Como é que a nossa obediência ao Espírito pode comprometer-nos numa maior fidelidade às exigências da custódia da casa comum?