Ficha 4: A criação como quase-sacramento

São João da Cruz e a criação

Leitura dos escritos de São João da Cruz

Texto 4: A criação como quase-sacramento

Proposta para o encontro comunitário

1.    Leitura do texto.

2.    Um dos participantes, que terá preparado previamente a sua intervenção, apresenta o texto com a ajuda da ficha de leitura (e de outros materiais, se considerar necessário).

3.    Diálogo comunitário sobre o texto.

Seria conveniente fazer uma leitura e meditação pessoal do texto antes do encontro comunitário.

Introdução ao texto

Após a fase da meditação (para principiantes), na qual a pessoa em oração procura o Amado através da mediação das criaturas, chega a fase da contemplação infusa.

Isto significa que ocorre uma espécie de inversão no processo contemplativo: no início (na meditação), somos nós que nos dirigimos ativamente a Deus; mas na etapa da contemplação infusa, é a ação de Deus em nós que passa a ser predominante, e devemos nessa altura adotar uma atitude passiva e não ativa.

O termo «passividade», utilizado pelo nosso autor, significa «receber» Deus, que se dá ou se infunde na alma.

Esta etapa culmina no desposório espiritual:

•  primeiro o desposório espiritual (CB 13 – etapa dos aproveitados),

•  e finalmente o matrimónio espiritual (CB 22 – etapa dos perfeitos).

Nesta fase da contemplação infusa, a pessoa mantém uma relação completamente nova com a criação. Experimenta que «todas as coisas são Deus» (CB 14-15,5).

É muito importante compreender que, nesta etapa, pela sua união sobrenatural com o Verbo Criador, a pessoa une-se também, em Cristo, à própria criação. Já não se trata apenas de passar dos atributos da criatura para os do Criador — por exemplo, da beleza de uma paisagem para a beleza de Deus —, como acontece na meditação, mas fazendo a experiência contemplativa da conexão íntima ou união direta entre os atributos da criatura e os atributos de Deus (por exemplo, a união direta e experimentada na contemplação entre a grandeza de uma montanha e a grandeza de Deus).

Aqui a novidade reside no facto de já não ser necessária a meditação para estabelecer essa ligação entre os atributos criados e os atributos incriados. Mais ainda: na meditação, só podemos aproximar-nos dos atributos da criatura e dos do Criador através de ideias (conceitos) ou imagens mentais; em contrapartida, na contemplação infusa, esses mesmos atributos criados e incriados e a sua união são experimentados por contacto (São João da Cruz diz «pelo toque» (II Subida 26)), sem necessidade de conceitos nem representações mentais, sem o esforço ativo da meditação. Assim, o criado, o incriado e o contemplativo ficam unidos.

Convém sublinhar ainda que o texto de São João da Cruz que se segue fala de forma muito significativa da «ceia» (CB 15,5). O nosso Doutor Místico quer dar testemunho da sua própria experiência, a saber: que na celebração da Eucaristia (a Ceia) e na transubstanciação, a criação já está transfigurada; torna-se um sacramento da presença de Deus.

Como um sinal e como um meio de união com Deus — que é precisamente a definição de sacramento —, o mundo que nos rodeia é, para São João da Cruz, um quase-sacramento para o contemplativo alimentado pela Eucaristia. Aqui torna-se inevitável recordar «A Missa sobre o Mundo» de Teilhard de Chardin.

Eis, pois, o texto de São João da Cruz:

CÂNTICO ESPIRITUAL B 14-15, 1-5.9.28-29:

Anotação para as canções seguintes

1.           Esta pombinha da alma andava a voar no céu do amor, sobre as águas do dilúvio das suas fadigas e ânsias de amor até agora manifestadas, sem ter onde poisar o pé. Neste último voo de que falámos, o piedoso pai Noé estendeu a mão da sua misericórdia e recolheu-a, metendo-a na arca (Gn 8, 8-9) da sua caridade e amor. Isto sucedeu quando, na canção que acabamos de explicar, disse: Volta, minha pomba.

Nesse recolhimento, encontrando a alma tudo o que desejava e mais do que se possa dizer, começa a entoar louvores ao seu Amado. Nas duas canções que se seguem, alude às grandezas que n’Ele sente e goza por meio desta união, dizendo:

Meu Amado, as montanhas,
Os vales solitários nemorosos,
As ínsulas estranhas,
Os rios rumorosos,
O sibilo dos ventos amorosos,
A noite sossegada
Já quando vem o anúncio da aurora,
A música calada,
A solidão sonora,
A ceia que recreia e enamora…

ANOTAÇÃO

2.           Antes de começarmos a explicar estas canções, e para melhor compreensão sua e das que depois se seguem, é preciso advertir que, neste voo espiritual que acabámos de falar, revela-se um alto estado e união de amor ao qual Deus, depois de muito exercício espiritual, costuma elevar a alma. Chamam-lhe desposório espiritual com o Verbo, Filho de Deus. No princípio, quando isto acontece pela primeira vez, Deus comunica à alma muitas das suas coisas, adornando-a de grandeza e majestade, enchendo-a de dons e virtudes, vestindo-a de conhecimento e honra de Deus, tal como a noiva no dia do seu casamento.

Neste dia ditoso, não só se acabam para a alma as ânsias ardentes e queixas de amor que antes tinha, mas, ficando adornada com estes bens que refiro, nasce-lhe um estado de paz, deleite e suavidade de amor, como se dá a entender nestas canções. Nelas, a alma não faz outra coisa senão contar e cantar as magnificências do seu Amado, no Qual as conhece e goza por meio dessa união do desposório.

É por isso que, nestas canções, já não fala, como antes, de penas e ânsias, mas da comunicação e exercício do doce e pacífico amor com o seu Amado, porque, neste estado, tudo aquilo acabou.

Convém notar que estas duas canções contêm o máximo que Deus, por esta altura, costuma comunicar a uma alma. Não se entenda, porém, que Deus comunica tudo quanto declaram estas duas canções a todas as almas que chegam a este estado, ou com o mesmo modo e medida do conhecimento e sentimento; a umas dá mais e a outras menos, a umas duma maneira e a outras doutra, embora ambas as coisas possam acontecer neste estado do desposório espiritual. No entanto, põe-se aqui o máximo possível, para que assim se compreenda tudo.

E segue-se a explicação.

EXPLICAÇÃO DAS DUAS CANÇÕES

3.           Repare-se que, assim como na arca de Noé havia muitas mansões para a grande variedade de animais e para todos os mantimentos que se podiam comer, como diz a Sagrada Escritura (Gn 6, 14-21), assim também, neste voo para a divina arca do seio de Deus, a alma começa a ver as muitas moradas que Sua Majestade, por meio de S. João (Jo 14, 2), disse haver na casa do Pai. Além disso, vê e conhece ali todos os manjares, que são todas as grandezas que a alma pode saborear; ou seja, todas as coisas que as duas canções acima mencionadas contêm e são designadas por aqueles vocábulos comuns. Substancialmente são as que se indicam a seguir.

4.           Nesta divina união a alma e saboreia a abundância de inestimáveis riquezas. Encontra todo o descanso e consolo que deseja. Entende segredos e misteriosas notícias de Deus, que é outro dos manjares que mais aprecia. Sente haver em Deus uma tão grande força e poder que desapossa qualquer outro poder e força. Goza ali duma extraordinária suavidade e doçura de espírito. Encontra um verdadeiro sossego e luz divina. Goza altamente da sabedoria de Deus que brilha na harmonia das criaturas e ações do Criador. Sente-se cheia de bens, alheada e vazia de males. E, sobretudo, entende e goza da inestimável refeição do amor, que a confirma no amor. Esta é a substância contida nas duas canções mencionadas.

5.           Nelas, a esposa diz que o seu Amado é, em Si mesmo e para ela, todas essas coisas. Por aquilo que Deus costuma comunicar em tais arroubamentos, a alma experimenta e conhece a verdade daquelas palavras de S. Francisco: Meu Deus e meu tudo. Daí que, sendo Deus tudo para a alma e o bem de tudo, estas canções revelam a comunicação deste arroubamento por analogia com a bondade das coisas, como se irá mostrando em cada um dos seus versos. Com isto há de se entender que tudo o que aqui se diz existe sobremaneira em Deus de modo infinito. Melhor dizendo, Deus é cada uma destas grandezas que dizemos e todas elas são Deus.

(…)

Os rios rumorosos

9.           Os rios têm três propriedades. Primeira: avançam e submergem tudo o que encontram; segunda: enchem todas as covas e buracos que encontram pela frente; terceira: fazem tal rumor, que impedem e abafam qualquer outro som. E, como nesta comunicação de Deus, de que estamos a falar, a alma experimenta n’Ele de forma muito saborosa estas três propriedades, diz que os rios rumorosos são o seu Amado.

Quanto à primeira propriedade que a alma experimenta, convém saber que, nessa união, a alma vê-se de tal maneira acometida pela torrente do espírito de Deus, e com tanta força o sente apoderar-se dela, que lhe parecem vir sobre ela todos os rios do mundo; e de tal maneira avançam contra ela, que sente ali afogarem-se todas as ações e paixões que antes tinha. E, apesar de ser uma coisa tão veemente, não atormenta, porque estes rios são rios de paz, como Deus dá a entender por Isaías falando desta arremetida na alma: Ecce ego declinabo super eam quasi fluvium pacis, et quasi torrentem inundantem gloriam. Quer dizer: Eis que vou fazer correr sobre ela, ou seja, sobre a alma, a paz como um rio, como uma torrente que transborda de glória (Is 66, 12). Assim, esta arremetida divina que Deus faz na alma enche-a totalmente de paz e glória, como os rios rumorosos.

A segunda propriedade que a alma experimenta é que esta água divina, por esta altura, invade as covas da sua humildade e enche os buracos dos seus apetites, como diz S. Lucas: Exaltavit humiles, esurientes implevit bonis. Que quer dizer: Exaltou os humildes, e encheu de bens os famintos (Lc 1, 52-53).

A terceira propriedade que a alma sente nestes rumorosos rios do seu Amado é um ruído e uma voz espiritual mais forte do que qualquer rumor e voz; a sua voz abafa todas as vozes e o seu rumor excede todos os rumores do mundo. Vamo-nos deter aqui um pouco para explicar como isto acontece.

(…)

A ceia que recreia e enamora.

28.        Nos apaixonados, a ceia causa gozo, fartura e amor. E, porque o Amado, por meio desta suave comunicação, origina estas três coisas na alma, chama-Lhe aqui a ceia que recreia e enamora.

É de notar que, na Sagrada Escritura, dá-se o nome de ceia à visão divina. Assim como a ceia significa o fim dos trabalhos do dia e o princípio do descanso da noite, também esta notícia sossegada, à qual nos referimos, faz experimentar à alma algum fim de males e posse de bens, pelo que fica mais enamorada de Deus do que antes. Por isso, Ele é para ela a ceia que recreia, por ser fim de males, e a enamora, por ser posse de todos os bens.

29.        Mas, para compreender melhor o que seja esta ceia para a alma, a qual, como dissemos, é o seu Amado, convém anotar aqui aquilo que o próprio amado Esposo disse no Apocalipse: Eu estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo (Ap 3, 20). Ele dá a entender que traz a ceia consigo, a qual não é outra coisa senão o próprio sabor e deleite de que Ele mesmo goza; ao unir-se com a alma, partilha-os com ela e, assim, também os saboreia; é isto o que quer dizer cearei com ele e ele comigo. Com estas palavras, portanto, manifesta-se o efeito da divina união da alma com Deus, onde os próprios bens de Deus são partilhados com a alma esposa, sendo-lhe comunicados por Ele, amorosa e copiosamente, como dissemos. Daí que Ele próprio seja para ela a ceia que recreia e enamora; recreia-a, por lhe ser copioso, e enamora-a por lhe ser amoroso.

LAUDATO SI’:

LS 9. (…) Além disso nós, cristãos, somos chamados a «aceitar o mundo como sacramento de comunhão, como forma de partilhar com Deus e com o próximo numa escala global. É nossa humilde convicção que o divino e o humano se encontram no menor detalhe da túnica inconsútil da criação de Deus, mesmo no último grão de poeira do nosso planeta».

Em 6. Os sinais sacramentais e o descanso celebrativo (LS 233-237):

LS 234. São João da Cruz ensinava que tudo o que há de bom nas coisas e experiências do mundo «encontra-se eminentemente em Deus de maneira infinita ou, melhor, Ele é cada uma destas grandezas que se pregam». E isto, não porque as coisas limitadas do mundo sejam realmente divinas, mas porque o místico experimenta a ligação íntima que há entre Deus e todos os seres vivos e, deste modo, «sente que Deus é para ele todas as coisas». Quando admira a grandeza duma montanha, não pode separar isto de Deus, e percebe que tal admiração interior que ele vive, deve finalizar no Senhor: «As montanhas têm cumes, são altas, imponentes, belas, graciosas, floridas e perfumadas. Como estas montanhas, é o meu Amado para mim. Os vales solitários são tranquilos, amenos, frescos, sombreados, ricos de doces águas. Pela variedade das suas árvores e pelo canto suave das aves, oferecem grande divertimento e encanto aos sentidos e, na sua solidão e silêncio, dão refrigério e repouso: como estes vales, é o meu Amado para mim». (Ibid., XIV, 6-7).

LS 235. Os sacramentos constituem um modo privilegiado em que a natureza é assumida por Deus e transformada em mediação da vida sobrenatural. Através do culto, somos convidados a abraçar o mundo num plano diferente. A água, o azeite, o fogo e as cores são assumidas com toda a sua força simbólica e incorporam-se no louvor. A mão que abençoa é instrumento do amor de Deus e reflexo da proximidade de Cristo, que veio para Se fazer nosso companheiro no caminho da vida. A água derramada sobre o corpo da criança batizada, é sinal de vida nova. Não fugimos do mundo, nem negamos a natureza, quando queremos encontrar-nos com Deus.  (…)

LS 236. A criação encontra a sua maior elevação na Eucaristia. A graça, que tende a manifestar-se de modo sensível, atinge uma expressão maravilhosa quando o próprio Deus, feito homem, chega ao ponto de fazer-Se comer pela sua criatura. No apogeu do mistério da Encarnação, o Senhor quer chegar ao nosso íntimo através dum pedaço de matéria. Não o faz de cima, mas de dentro, para podermos encontrá-Lo a Ele no nosso próprio mundo. Na Eucaristia, já está realizada a plenitude, sendo o centro vital do universo, centro transbordante de amor e de vida sem fim. Unido ao Filho encarnado, presente na Eucaristia, todo o cosmos dá graças a Deus. Com efeito a Eucaristia é, por si mesma, um ato de amor cósmico. «Sim, cósmico! Porque mesmo quando tem lugar no pequeno altar duma igreja da aldeia, a Eucaristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo». A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação. O mundo, saído das mãos de Deus, volta a Ele em feliz e plena adoração: no Pão Eucarístico, «a criação propende para a divinização, para as santas núpcias, para a unificação como próprio Criador». Por isso, a Eucaristia é também fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente, e leva-nos a ser guardiões da criação inteira.

Perguntas:

1.    De que forma São João da Cruz utiliza as imagens da natureza (montanhas, rios, florestas) para revelar uma presença sacramental de Deus e em que sentido a Laudato Si 233-237 ultrapassa uma visão meramente utilitarista da natureza para a apresentar como um «sacramento de comunhão»?

2.    Como é que a liturgia da Igreja (por exemplo, bênção das colheitas, dia da criação) atualiza esta visão? Seria conveniente criar novas liturgias?

3.    Comparem a visão cristã com outras abordagens de acordo com o vosso país e cultura (por exemplo, a sacralidade da terra nas espiritualidades ameríndias, no budismo zen, no hinduísmo e no animismo). 4.    Em que medida uma visão sacramental da criação pode responder à atual crise ecológica?