CHAMA VIVA

Esta chama de amor,
que é o Espírito Santo,
o qual a alma sente já em si, não só como fogo
que a tem consumada
e transformada em suave amor,
mas como fogo que, além disso,
arde nela e deita chama… E aquela chama,
cada vez que chameja, banha a alma em glória
e a refresca em têmpera de vida divina.
E esta é a operação do Espírito Santo na alma transformada em amor,
de modo que os actos interiores que faz é chamejar, que são inflamações de amor,
em que unida a vontade da alma, ama subidissimamente,
feita um amor com aquela chama.
E assim, estes actos de amor da alma são preciosíssimos;
e num só ela merece mais e vale mais
que em tudo quanto fez em toda a sua vida sem esta transformação,
por mais que isso fosse.
E a diferença que há entre o hábito e o acto, há entre a transformação em amor
e a chama de amor,
e é a mesma que há entre o madeiro inflamado e a sua chama:
pois a chama é efeito do fogo que ali está…
E os actos desta alma
são a chama que nasce do fogo de amor, que salta tanto mais veemente
quanto mais intenso é o fogo da união na qual chama se unem
e sobem os actos da vontade, arrebatada e absorta
na chama do Espírito Santo,
que é como o anjo que subiu para Deus
na chama do sacrifício de Manué (Jz 13, 20).
E assim, neste estado
não pode a alma fazer actos,
pois o Espírito Santo os faz todos e a eles a move; e por isso,
todos os seus actos são divinos, pois é feita e movida por Deus.
E assim parece à alma que
cada vez que esta chama flameja,
fazendo-a amar com sabor e têmpera divina, lhe está dando vida eterna,
pois levanta-a a operação de Deus em Deus.
CH B 1, 3-4