Cântico Espiritual (14)
Esposa Meu Amado, as montanhas,Os vales solitários nemorosos,As ínsulas estranhas,Os rios rumorosos,O sibilo dos ventos amorosos.
Esposa Meu Amado, as montanhas,Os vales solitários nemorosos,As ínsulas estranhas,Os rios rumorosos,O sibilo dos ventos amorosos.
Afasta-os, Amado,Que estou voando. Esposo Volta, minha pomba,Que, ferido, o veadoLá no outeiro assomaAo sopro do teu voo e o fresco toma.
Cristalina nascente,Se nesses teus semblantes prateadosFormasses de repenteOs olhos desejadosQue tenho nas entranhas desenhados!
Mostra a tua presença,Matem-me tua vista e formosura,Pois olha que a doençaDe amor jamais se curaSenão com a presença e a figura.
Apaga o meu desgostoPois mais ninguém consegue desfazê-lo,E veja-Te o meu rostoQue és lume a acendê-loE apenas para Ti eu quero tê-lo!
Porquê, tendo chagadoA este coração, o não curaste?E, pois mo hás roubado,Porque assim o deixasteE não guardas o roubo que roubaste?
Mas como perseveras,Ó vida, não vivendo onde vives,Matando-te deverasAs flechas que recebesDaquilo que do Amado em ti concebes?
E todos quantos vagamDe Ti me vão mil graças relatando!E todos mais me chagamE mais me vai matandoUm não sei quê que ficam balbuciando!
Ai quem virá curar-me?Vem entregar-Te já, pois a Ti espero.Não queiras enviar-meMais nenhum mensageiroPorque dizer não sabem o que eu quero.
Mil graças derramandoPassou por estes soutos com pressuraE, assim os indo olhando,Com sua só figuraVestidos os deixou de formosura.