Ficha 3: A criação, uma “mensageira”

São João da Cruz e a criação

Leitura dos escritos de São João da Cruz

Texto 1: A criação, uma “mensageira”

Proposta para o encontro comunitário

1.    Leitura do texto.

2.    Um dos participantes, que terá preparado previamente a sua intervenção, apresenta o texto com a ajuda da ficha de leitura (e de outros materiais, se considerar necessário).

3.    Diálogo comunitário sobre o texto.

Seria conveniente fazer uma leitura e meditação pessoal do texto antes do encontro comunitário.

Introdução ao texto

Neste novo texto, São João da Cruz mostra-nos a criação como palavra divina que nos fala d’Ele, do Amado divino.

Convém recordar que, no Cântico Espiritual B, (no seu comentário), São João da Cruz propõe traçar todo o itinerário espiritual de acordo com as suas três etapas principais: principiantes, aproveitados e perfeitos (ele próprio o indica em CB 22,3).

Até à estrofe 5, trata-se daqueles que se encontram na etapa da «meditação». E esta etapa, que é fundamental e inevitável, desenvolve-se a partir da «consideração» da criação. Toda a criação — incluindo os anjos e os santos — é vista como uma «mensageira» a quem a Esposa interroga e de quem espera notícias do Amado, em particular sobre o lugar onde Ele se «esconde» (1,1). Esta atitude está em continuidade com o que vimos nos textos anteriores: a criação, como «palácio» e «ícone», é já uma autocomunicação de Deus.

Assim, para São João da Cruz, os quatro elementos naturais — terra, água, ar e fogo — (uma forma tradicional de reflexão científica desde a antiguidade), e todas as suas infinitas combinações no mundo natural que nos rodeia (natureza, cultura, ciências e técnicas, etc.), são como outras tantas palavras divinas.

Essas conceções sanjoanista, aplicadas hoje, abrem um campo muito fértil para uma reflexão ética sobre a investigação científica:

•    A ciência deve limitar-se apenas à lógica do lucro ou do rendimento?

•    Não deveria também preservar o espaço gratuito da contemplação admirada, aberto à busca de Deus?

Desde a antiguidade, os filósofos têm refletido sobre esses dois aspetos da nossa relação com a criação. Já Aristóteles (século IV a.C.) distinguia duas dimensões na nossa relação com o mundo criado:
•    a «teoria», da ordem do fazer, daquilo que a humanidade fabrica;
•    e a «poesia», da ordem do ser, do surgimento espontâneo da natureza que nos rodeia e, portanto, do domínio da contemplação.

Um filósofo do século XX, Heidegger, também meditou sobre esta atitude perante o mundo, denunciando o predomínio do «fazer», do «fabricar» e do «produzir-consumir» em que se encerrou o Ocidente e, com ele, pouco a pouco, todo o planeta.

O fragmento do poema de São João da Cruz que se segue, juntamente com o seu comentário, enfatiza a primazia do olhar contemplativo sobre a criação, não para nos afastar da ação científica ou técnica, mas para a purificar.

Este tema da purificação necessária é recorrente na obra sanjoanista. A fé purifica o nosso olhar sobre o mundo, fazendo-o passar de uma atitude de posse e consumo (o que São João da Cruz chama de «ativo») para uma atitude de acolhimento gratuito e respeitoso (o que ele denomina «passivo»).

Este é, precisamente, o sentido do famoso «passo» (Páscoa) da meditação à contemplação (2 Subida, 12-15).

Então, o olhar sobre a criação torna-se uma «atenção amorosa», feita de fé, amor e esperança.

CÂNTICO ESPIRITUAL B 4

Ó bosques e espessuras
Plantadas pela mão do meu Amado!
Ó prado de verduras
De flores esmaltado!,
Dizei se Ele por vós terá passado!

Explicação

1. A alma acaba de indicar a maneira de se dispor para começar este caminho, ou seja, não andar atrás de deleites e gostos e ganhar força para vencer as tentações e as dificuldades, pois nisso consiste o exercício do conhecimento próprio, que é a primeira coisa que a alma tem a fazer para chegar ao conhecimento de Deus. Agora, nesta canção, através da consideração e conhecimento das criaturas, começa a caminhar em direção ao conhecimento do seu Amado, que é o Criador delas[1]. De facto, após o exercício do conhecimento próprio, a meditação sobre as criaturas encontra-se em primeiro lugar neste caminho espiritual para o conhecimento de Deus. É por elas que se conhece a sua grandeza e excelência, como diz o Apóstolo: Invisibilia enim ipsius a creatura mundi, per ea quae facta sunt intellecta, conspiciuntur (Rm 1, 20). Que é como se dissesse: As coisas invisíveis de Deus são conhecidas pela alma através das coisas criadas, visíveis e invisíveis.

Portanto, nesta canção, a alma dialoga com as criaturas e pergunta-lhes pelo seu Amado. Mas convém saber, como diz Santo Agostinho, que a pergunta que a alma faz às criaturas é a contemplação do seu Criador nelas[2]. Esta canção, portanto, considera os elementos e demais criaturas inferiores, os céus e demais criaturas e coisas materiais que Deus neles criou, bem como os espíritos celestiais. Então diz:

Ó bosques e espessuras!

2. Chama bosques aos elementos da natureza, que são terra, água, ar e fogo. Como os bosques, são muitíssimo amenos e povoados por espesso número de criaturas, às quais chama aqui espessuras, precisamente pelo grande número e variedade que existe em cada um deles. Na terra, uma incontável variedade de animais e plantas; na água, uma diversidade inumerável de peixes; no ar, uma grande variedade de aves; e o elemento do fogo que em todos concorre para lhes dar vida e conservar. Cada espécie de animais, portanto, vive no seu elemento e está colocada e plantada nele como no seu bosque ou região onde nasce e cresce. Na verdade, assim o ordenou Deus quando os criou: mandou à terra que produzisse plantas e animais; ao mar e à água, os peixes; e fez do ar a morada das aves (Gn 1, 11-12, 20-22, 24-25, 26-29). Por isso, vendo a alma que tudo foi feito como Ele tinha mandado (Gn, ibid.), diz o seguinte verso:

Plantados pela mão do meu Amado.

3. Ele apresenta a seguinte consideração: estas variedades e grandezas só poderiam ser feitas e criadas pela mão do Amado Deus! Note-se que ela diz intencionalmente pela mão do Amado, porque, embora Deus faça muitas outras coisas por mãos alheias, como são as dos anjos e dos homens, esta, que consiste em criar, nunca a fez nem faz por outra que não seja a sua. É por isso que a alma se inclina muito ao amor do seu Amado através da contemplação das criaturas, porque se dá conta que foram criadas pela mão do próprio Deus. E continua:

Ó prado de verduras!

4. É assim que considera o céu, a quem chama prado de verduras, porque as coisas criadas que nele existem conservam uma imperecível verdura, porque não morrem nem murcham com o tempo. É nelas, como em verdes prados, que os justos se comprazem e gozam. Esta consideração compreende ainda toda a variedade de lindas estrelas e outros planetas celestes.[3]

5. Também a Igreja chama às coisas celestes verduras quando, ao pedir a Deus pelas almas dos fiéis defuntos, se dirige a elas e diz: Constituat vos Dominus inter amoena virentia. Quer dizer: Que Deus vos estabeleça entre as amenas verduras.[4] Diz ainda que este prado de verduras também está

de flores esmaltado.

6. Por estas flores entende os anjos e as almas santas, com as quais está adornado e enfeitado aquele lugar, à semelhança de um belo e precioso esmalte num recipiente de ouro magnífico.

Dizei se Ele por vós terá passado.

7. Esta pergunta é a contemplação a que nos referimos antes. É como se dissesse: Dizei as excelências que em vós criou!

LAUDATO SI’:

LS 85. Deus escreveu um livro estupendo, «cujas letras são representadas pela multidão de criaturas presentes no universo». E justamente afirma­ram os bispos do Canadá que nenhuma criatura fica fora desta manifestação de Deus: «Desde os panoramas mais amplos às formas de vida mais frágeis, a natureza é um manancial incessante de encanto e reverência. Trata-se duma contínua revelação do divino». Os bispos do Japão, por sua vez, disseram algo muito sugestivo: «Sentir cada criatura que canta o hino da sua existência é viver jubilosamente no amor de Deus e na espe­rança». Esta contemplação da criação permite­-nos descobrir qualquer ensinamento que Deus nos quer transmitir através de cada coisa, porque, «para o crente, contemplar a criação significa também escutar uma mensagem, ouvir uma voz paradoxal e silenciosa». Podemos afirmar que, «ao lado da revelação propriamente dita, conti­da nas Sagradas Escrituras, há uma manifestação divina no despontar do sol e no cair da noite». Prestando atenção a esta manifestação, o ser hu­mano aprende a reconhecer-se a si mesmo na re­lação com as outras criaturas: « Eu expresso-me exprimindo o mundo; exploro a minha sacralida­de decifrando a do mundo».

LS 87. Quando nos damos conta do reflexo de Deus em tudo o que existe, o coração experi­menta o desejo de adorar o Senhor por todas as suas criaturas e juntamente com elas, como se vê neste gracioso cântico de São Francisco de Assis:

«Louvado sejas, meu Senhor,
com todas as tuas criaturas,
especialmente, o meu senhor, irmão sol,
o qual faz o dia e por ele nos alumia.
E ele é belo e radiante com grande esplendor:
de Ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.
Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã lua e pelas estrelas,
que no céu formaste claras, preciosas e belas.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento
pelo ar, pela nuvem, pelo sereno, e todo o tempo,
com o qual, às tuas criaturas, dás o sustento.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água,
que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo,
pelo qual iluminas a noite:
ele é belo e alegre, vigoroso e forte».

LS 97. O Senhor podia convidar os outros a es­tar atentos à beleza que existe no mundo, porque Ele próprio vivia em contacto permanente com a natureza e prestava-lhe uma atenção cheia de carinho e admiração. Quando percorria os qua­tro cantos da sua terra, detinha-Se a contemplar a beleza semeada por seu Pai e convidava os discí­pulos a individuarem, nas coisas, uma mensagem divina: «Levantai os olhos e vede os campos que estão doirados para a ceifa» (Jo 4, 35). «O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. É a menor de todas as sementes; mas, depois de crescer, torna-se a maior planta do horto e trans­forma-se numa árvore» (Mt 13, 31-32).

Perguntas

1. São João da Cruz descreve a natureza como mensageira na estrofe 4 do Cântico Espiritual B? Que função espiritual desempenha essa «mensageira», segundo ele?

2. Como desenvolve a Laudato Si’ (n. 87) esta ideia da natureza como lugar de encontro com Deus?

3. Para si, a criação é mais um «livro» (Laudato Si’ 87) ou uma «mensageira» (São João da Cruz)? Porquê?

4. Também no n.º 87 da Laudato Si’, fica claro que a criação nos fala de Deus e que esse diálogo constante entre a natureza e a humanidade é um lugar de encontro com Ele.  Em que esta ideia se une à de São João da Cruz, para quem a natureza traz uma mensagem divina dirigida diretamente à alma humana?

5.    Se a criação é uma «mensageira» de Deus, de que forma isso altera nossa visão sobre os seres vivos (animais, paisagens, recursos)?  

E como se pode conciliar a espiritualidade da criação (como em São João da Cruz) com as urgências ecológicas (como em Laudato Si’)?


[1] Continua o processo dinâmico da procura de Deus. Nas canções seguintes veremos que das criaturas irracionais (4-6) passa para as racionais (7-8) e terminar depois na interpelação direta ao Amado (9-11).

[2] Confissões, livro 10, cap. 6 (PL 32, 783).

[3] É possível que João da Cruz se esteja a lembrar das vigílias das noites que passava a contemplar as estrelas, a harmonia e música celestes até altas horas da madrugada. (Cf. J. V. RODRIGUEZ, San Juan de la Cruz, profeta, enamorado de Dios y Maestro, Madrid, 1987, p. 72).

[4] Texto, um pouco modificado, do Ordo commendationis animae, no Rituale Romanum, tit. 6, cap. 7.