Ventos de esperança

Jonas Viana*

A alma enamorada
é conduzida pelos Ventos de Esperança

Em 2026, a Igreja entra num tempo de especial densidade espiritual ao celebrar o Ano Jubilar de São João da Cruz. Não é apenas uma evocação histórica, mas um verdadeiro kairós: comemoram-se os 300 anos da sua canonização (1726) e os 100 anos da proclamação como Doutor da Igreja (1926). Dois marcos que confirmam aquilo que o tempo já revelou – a sua palavra continua viva, necessária e profundamente atual.

O Jubileu, celebrado de 14 de dezembro de 2025 a 27 de dezembro de 2026, propõe-se como um caminho de renovação interior, guiado pelo lema «A esperança alcança tanto quanto espera”. Trata-se de um convite direto ao coração da experiência sanjoanina: esperar contra toda evidência, amar no escuro, permanecer fiel quando Deus parece ausente. Não uma esperança ingénua, mas uma esperança purificada, amadurecida na noite e sustentada pelo amor.

Celebrar São João da Cruz, neste Ano Jubilar, é voltar a aprender que a vida espiritual não se mede por consolações, mas por profundidade; não por ruídos exteriores, mas pela verdade do silêncio habitado. Num mundo marcado pela pressa e pela dispersão, a sua voz reaparece como um apelo firme e manso à interioridade, à liberdade do desapego e à união com Deus que se dá em quem ousa confiar.

Assim, este tempo jubilar não se limita à memória de um santo, mas a abrir um itinerário. Um caminho onde a fé é purificada, a esperança é alongada e o amor é levado ao extremo. À luz de São João da Cruz, a Igreja é chamada, mais uma vez, a descer à noite – não para perder-se, mas para encontrar, no fundo do coração, o Deus que basta.

Por isso, neste novo ano, os Ventos de Esperança que vão soprar trarão muitas das palavras do nosso querido amigo João da Cruz; palavras que são fortes como a tempestade, ardentes como o fogo e marcantes como tempo. E começamos falando de algo que para o santo carmelita era tão caro: o amor da alma enamorada pelo Amado.

O amor da alma enamorada

A alma enamorada ergue a voz como quem confia um segredo antigo. Dirige-se a Deus chamando-O de amado, não por costume, mas por necessidade. Reconhece que, se o pedido ainda não foi atendido, talvez seja porque as próprias faltas permanecem à vista. Ainda assim, não recua. Entrega esses pecados à vontade divina, desejando que até neles Deus exerça a sua bondade e misericórdia, para que o Seu nome seja conhecido até nos lugares onde antes havia sombra.

A alma reflete, então, que talvez Deus espere algo dela: obras, gestos, respostas concretas. E se for assim, pede que essas obras não nasçam de sua fraqueza, mas do próprio Deus. Que seja Ele a agir por dentro, a realizar o que exige, a aceitar também as dores que julgar necessárias. A alma consente que tudo aconteça, desde que seja segundo o querer divino.

A alma reconhece a própria incapacidade de se elevar sozinha. Sabe que ninguém se liberta da pequenez sem ser erguido pela pureza do amor divino. Como poderia o ser humano, gerado na fragilidade, levantar-se até Deus se não fosse sustentado pela mesma mão que o criou? Tudo o que sobe em direção ao alto só o faz porque foi antes levantado.

Com confiança renovada, a alma lembra a Deus aquilo que já lhe foi dado. Pede que não lhe seja tirado o dom maior: o Filho único, em quem tudo foi concedido. Em Cristo, a alma recebeu tudo o que pode desejar. Por isso, aprende a esperar com alegria, certa de que Deus não tarda quando a esperança é verdadeira.

Então, a voz interior se expande e contempla a herança recebida. Os céus e a terra já não lhe parecem distantes: pertencem-lhe. As pessoas, justas e pecadoras, fazem parte do mesmo dom. Os anjos, a Mãe de Deus, todas as coisas – tudo lhe foi confiado. E mais ainda: o próprio Deus se deu, porque Cristo é todo seu e para ela.

Diante disso, a alma interroga-se a si mesma. O que ainda buscas? O que ainda pedes? Tudo já te foi dado. Nada te falta. Não te rebaixes a recolher migalhas do chão quando és convidada à mesa do Pai. Sai de ti mesma, repousa na glória que te foi confiada, esconde-te nela e desfruta. Ali, no coração desse abandono confiante, os desejos mais profundos encontram resposta.

O Autor é jornalista e consagrado da Comunidade Católica Shalom. Escreve em português do Brasil