Três passos para viver o ano de São João da Cruz

São João da Cruz nasceu em 1542, em Fontiveros, Espanha. Foi criado por sua mãe, Catarina Álvarez, precocemente viúva. Depois de entrar na Ordem do Carmo quis passar-se para a da Cartuxa, intenção de que foi demovido por Santa Teresa. Em sua vida sofreu muitas incompreensões e violências, mas foi sempre suave e doce. Faleceu em 1591. Foi canonizado em 1726, por Bento XIII; e em 1926, Pio XI declarou-o Doutor da Igreja. Este homem pequenino é uma das grandes figuras da cultura universal e autor de obras espirituais celebradas em todo o mundo.

Trezentos anos depois da sua feliz canonização (e a cem da declaração do seu doutoramento eclesial) celebrámo-lo durante este ano. Talvez porque por cá nos falhem as planuras imensas que alargam os horizontes e melhor nos elevam o olhar ao infinito; talvez por isso, Portugal nunca tenha dado místicos de estatura universal. Espanha, sim, teve-os, e não apenas São João da Cruz e Santa Teresa. Para além destes e doutros (e das adversidades que sempre obrigam a justificar a fé e a fundá-la em alicerces robustos – os eternos e os verdadeiros –), a verdade é que o chão castelhano, tão raso, ainda hoje obriga a erguer o olhar para o alto.

É por isso que é bom peregrinar a Ávila, Segóvia ou Loyola, por exemplo, a fim de tonificarmos a alma. Por estes dias, aliás, os nossos corações voam para Segóvia e pousam junto ao Sepulcro de São João da Cruz. Oxalá possamos viver o Ano Joãocruciano como um tempo novo, como um apelo de idêntica amizade com Jesus, disponíveis para melhor conhecermos esse homem «celestial e divino», pequenino de estatura, mas grande aos olhos de Deus, e tão actual, apesar de ter vivido há quinhentos anos. Aqui ficam, pois, três breves orientações para vivermos este ano jubilar:

Atenção aos pobres

João foi um homem pobre. Tão pobre que era quase nada. Até de corpo era mirrado; era discreto e não tinha nojo de andar descalço ou de sentar-se no chão. Como nada o agarrava para baixo, subia todo para. Porém, os seus pés descalços caminhavam pelo chão, o que o constituía um homem muito atento. Viveu num tempo lento, o que vinha bem com o seu génio sereno, contemplativo, inclinado à solidão. E tinha o dom da escuta paciente: com a mesma serenidade escutava um bispo ou um sacristão; um sábio letrado ou um caloiro; um governante ou uma governanta. E a todos ensinava que o trilho que devemos percorrer é tanto o da união com Deus como o da atenção aos pobres.

o mais profundo centro

Numa coisa o seu e o nosso tempo são gémeos: vivendo no meio do ruído, da dispersão e da ansiedade, é possível, e a isso nos devemos devotar: a empreender a viagem ao profundo centro de nós mesmos, onde, secretamente, Deus mora. Sejamos claros: tal viagem não se faz sem custos, pelo que nos declara: tem de ser feita em absoluta nudez interior; e nela não valem nem títulos nem passaportes gold; de nada servem a sabedoria acumulada ou as experiências vividas; nem conquistas alcançadas, nem seguranças algumas. Tal viagem obriga a soltar o que mói e pesa, a abandonar o que distrai e dispersa do essencial; e a deixar Deus ser Deus. Porque se deixarmos que a pressa e as honras nos dominem, tudo em nós soçobra; mas, se dermos a Deus o centro da nossa vida, tudo o demais encaixa em seu perfeito lugar.

Da noite para a luz

A vida de São João da Cruz foi um tão grande calvário que alguns perguntam: «quem é este santo que tem uma cruz bem maior que ele?».

A sua curta vida foi terrivelmente duríssima! Tão dura que, desde menino, apenas teve um báculo a ampará-lo: a cruz. Pela cruz, Deus fez de Joãozito, depois frei João da Cruz, uma obra admirável aos olhos do mundo e aos olhos dos santos! Tão admirável que se tornou chama luminosa para sucessivas gerações de cristãos.

Onde, ontem ou hoje, outros simplesmente soçobrariam e deprimiriam, ele ergueu-se como um farol em noite escura (ou em dias de nevoeiro), porque sempre ousou olhar a realidade da sua vida e do mundo a partir da luz do Evangelho – tal é a razão pela qual jamais leu a Cruz como um fracasso, mas como o lugar onde o amor de Deus se mostra mais puro e transformador.

Ler uma biografia sua – «O rosto humano do mistério», por exemplo – ajuda-nos a ver o quanto da sua vida foi de dura escuridão; porém ele não a entendeu como abandono, mas como purificação, e sofrendo o peso da noite da incompreensão, sem que ela o destruísse, antes o amadurecesse, ele provou que a alma quando persevera na fé nua, encontra uma liberdade que o mundo não compreende nem pode oferecer.

Eis, em definitivo, a lição de São João da Cruz aos que tendo hoje medo da dor, logo buscam consolo: só percorrendo o caminho do nada, abraçamos o Tudo. Quem, pois, nesta hora precise, acolha-se a ele que aprendeu a transformar, em Deus e por Deus, todas as cruzes num caminho de santificação.