PROGRAMA IDEAL DE VIDA

Os avisos que aqui se seguem para vencer os apetites,
bem que sejam breves e poucos, entendo que são tão proveitosos e eficazes como compendiosos, de maneira que, quem neles
se quiser exercitar deveras, mais nenhum lhe fará falta,
antes nestes abraça-os a todos.

– O primeiro, tenha um habitual apetite de imitar a Cristo em todas as coisas,
conformando-se com a sua vida,
a qual deve considerar para saber imitar
e haver-se em todas as coisas como Ele se haveria.

– O segundo, para bem poder fazer isto,
renuncie a qualquer gosto que se ofereça aos sentidos
não sendo puramente
para honra e glória de Deus, e fique vazio dele
por amor de Jesus Cristo,
que não teve nesta vida outro gosto, nem quis ter,
senão o de fazer a vontade de seu Pai,
a que chamava a sua comida e manjar (Jo 4, 34).
Ponho exemplo: se se lhe oferecer o gosto de ouvir coisas
que não importem para o serviço e honra de Deus,
nem o queira saborear nem as queira ouvir.
E se lhe der gosto olhar para coisas que não ajudem mais para Deus, nem queira o gosto,
nem ver as tais coisas.
E se no falar ou em outra coisa qualquer ele se lhe oferecer, faça o mesmo;
e com todos os sentidos, nem mais nem menos,
enquanto o puder evitar boamente; porque se não puder,
basta que não queira saboreá-lo,
ainda que estas coisas passam por si.
E desta maneira há-de procurar
deixar logo mortificados e vazios daquele gosto os sentidos,
como se fosse às escuras.
E com este cuidado,
muito aproveitará em breve. E para mortificar e apaziguar as quatro paixões naturais,
que são gozo, esperança, temor e dor, de cuja concórdia e pacificação
resultam estes e os demais bens, é remédio total o que segue,
e de grande merecimento
e causa de grandes virtudes.
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Procure sempre inclinar-se:
não ao mais fácil, senão ao mais difícil;
não ao mais saboroso, senão ao mais insípido; não ao mais gostoso,
senão antes ao que dá menos gosto;
não ao que é descanso, senão ao trabalhoso; não ao que é consolo,
senão antes ao desconsolo;
não ao mais, senão ao menos; não ao mais alto e precioso,
senão ao mais baixo e desprezível; não ao que é querer algo,
senão a não querer nada;
não andar buscando o melhor das coisas temporais,
senão o pior,
e desejar entrar em toda a desnudez e vazio e pobreza por Cristo,
em tudo quanto há no mundo.
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E convém abraçar estas obras de coração e procurar ajustar a vontade nelas.
Porque se de coração as opera,
muito em breve virá a ter nelas grande delícia e consolo,
operando-as ordenada e discretamente.
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O que ficou dito, sendo bem exercitado, basta bem para entrar na noite sensitiva. Porém, diremos, para maior abundância, outra maneira de exercício
que ensina a mortificar
a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida,
que são as coisas,
que disse São João (1 Jo 2, 16), reinam no mundo,
das quais procedem todos os demais apetites.
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O primeiro, procurar trabalhar em seu desprezo, e desejar que todos o façam…
O segundo, procurar falar em seu desprezo, e desejar que todos o façam…
O terceiro, procurar pensar baixamente de si
em seu desprezo e desejar que todos o façam…
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Como conclusão destes avisos e regras convém pôr aqui os versos
que se escrevem na Subida do Monte…
Para vir a gostar tudo,
não queiras ter gosto em nada. Para vir a possuir tudo,
não queiras possuir algo em nada.
Para vir a ser tudo,
não queiras ser algo em nada.

Para vir a saber tudo,
não queiras saber algo em nada. Para vir ao que não gostas,
hás-de ir por onde não gostas.
Para vir ao que não sabes,
hás-de ir por onde não sabes. Para vir ao que não possuis,
hás-de ir por onde não possuis.
Para vir ao que não és,
hás-de ir por onde não és.
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Modo para não impedir o tudo
Quando reparas em algo,
deixas de arrojar-te ao tudo.
Porque para vir de todo ao tudo hás-de negar-te de todo em tudo.
E quando o venhas de todo a ter, hás-de tê-lo sem nada querer.
Porque, se queres ter algo em tudo,
não tens puro em Deus o teu tesouro.
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Nesta desnudez encontra o espiritual a sua quietude e descanso, porque,
não cobiçando nada,
nada o afadiga para cima
e nada o oprime para baixo,
porque está no centro da sua humildade. Porque, quando algo cobiça,
nisso mesmo se afadiga.

S 1, 13, 2-13