Os caminhos que o levaram ao mar, donde anteviu o céu

Frei João Costa, OCD

1.           Há pouco mais de quatro séculos, como suave cometa, uma ardente língua de fogo e de bênção divina, cantando, ligeiro palmilhou, os nossos caminhos. E continua percorrendo-os, hoje, não já ele em seu mínimo corpo, mas ele todo em nossos corações viadores. Sim, alegra-me muito saber que um místico ignescente e luminoso, São João da Cruz, chama de rara estirpe e grave estaleca, atravessou outrora Portugal de cabo a rabo. Caminhando, peregrinando, no coração cozia da mais bela e acendrada poesia de Deus e das mais altas e nobres paternas palavras. Agradável me é muito saber que os caminhos e larguezas onde duzentos anos antes D. Nuno Álvares Pereira erguera sua espada, e primeiramente exercitara seus lanceiros para defender Portugal, esses mesmos, fossem depois ungidos pelos hinos apaixonados e mansos pés descalços desse castelhano tão mínimo maior que dá pelo nome de San Jvan de la Cruz, esse universal pai das almas.

Numa viagem só, ora a pé, ora na garupa dum humilde parente do de Belém, palmilhou ele mais de setecentos quilómetros – aqueles tantos que vêm da andaluza Granada, onde era prior de Los Mártires, para a pacífica Lisboa, onde, longe dos inquisidores ouvidos de Madrid, a Descalcez se reuniria em Capítulo Provincial.

Dessa inteira viagem me cabe um lamento só: que daquela ou doutra que a completasse, não tenha ele descido Portugal de cima a baixo como quem, percorrendo trilhos e carreiros, nos traçasse uma cruz sobre o coração. Mas já que o não fez, esta nos bastará.

E assim se uniram numa só viagem as duas únicas nações que os pés do andarilho frade descalço ungiram: a sua e a nossa, que também é sua.

Passados eram quatro anos em que os Descalços desaguado haviam em Lisboa, quando ele os atravessou de lés a lés até ao Carmo de São Filipe, esparzindo unção e bênção por nossas inteiras veredas e barrancos. E se em pós tanta construção lacerante e tanta asneira dilacerante, ainda hoje nos é permitido dizer que Portugal é lindo, mormente na primavera, imagine-se o que de nós não terá dito São João da Cruz, e como não terá ele cantado e trinado em nossas veigas e por entre nossas loiras searas! Imagine-se!

2.           Sendo prior de Los Mártires, acercou-se, pois, como lhe competia, aquele Capítulo de 1585, caminhando par em par com seu sócio, Frei Bartolomeu de São Basílio. A rota portuguesa dos 720km do trajecto que o trouxeram foi: Vila Verde de Ficalho, Vila Nova de São Bento, Serpa, Beja, Alfundão, Odivelas, Quinta de Dom Rodrigo (próxima de Xarraminha), Alcácer do Sal, Alberge, Palma, Águas de Moura, Marateca, Palmela, Moita, Almada, Lisboa.

Em algum feliz dia deste ano jubilar, alguém deveria plantar serena cruz em essa terra de azeite, vinho e mel que é Ficalho, a primícia lusa que seus santos e descalços pés beijaram. Coubera-me a mim e por perto plantaria também uma oliveira cordovil de Serpa e um estendal de roseiras brancas, pela simples razão de que, por certo, São João da Cruz se acercou à pátria lusa advindo da andaluza aldeia de Rosal de la Frontera.

No dia dez daquele maio primaveril já Frei João da Cruz se encontrava no Carmo de São Filipe, por nesse dia e lugar se ter dado a abertura do primeiro Capítulo da Província Descalça inteiramente separada da da Antiga Observância. No dia seguinte, depois do P. Dória haver sido eleito Provincial, foi Frei João eleito segundo Definidor; e sete dias depois aquela magna assembleia foi suspensa, por dela estar ausente o Provincial eleito, P. Nicolau de Jesus Dória de seu inteiro nome, fundador e até então prior de Génova.

Frei João da Cruz permaneceu em Lisboa até finais de julho ou inícios de agosto, data em que regressou a Andaluzia. Deu-se aqui à vida claustral, como era seu timbre e mais convinha à talha da sua alma; visitou as Carmelitas Descalças de que era prioresa a carismática Madre Maria de São José, uma das principais, se não a principal discípula de Santa Teresa, pelo que nem podemos imaginar como santamente flamejaram ao falarem da Madre Santa, dos colóquios que entre os dois fundadores havidos eram e das variegadas ibéricas andanças da Descalcez por trancas e barrancas; ah, e como não, ditou-lhes e entoou-lhes de viva voz, além dos menores, os seus três poemas maiores: Noite, Cântico Espiritual e Chama de Amor Viva; e negou-se a visitar, como os demais imprudentes capitulares, a trampolineira prioresa das dominicanas do mosteiro da Anunciação – Maria da Visitação –, por a sua fé não precisar de mais chagas que as de Nosso Senhor; e deliciou-se, enfim, a contemplar a imensamente doce vastidão do mar, que a sua proximidade e aqueles amenos dias pela primeira vez em sua vida tanto lho permitiram.

Testemunharam muitos daqueles capitulares que, soindo Frei João passear para a Ribeira das Naus – à data os amplos espaços dos estaleiros navais onde se construíam e reparavam as lusas naves que, dando-se aos rigores das negras águas e dos agrestes ventos, ofereciam à largura da humanidade tantos novos mares e novas terras –, dali pôde ele espraiar o olhar e a alma pela amplidão do estuário do Tejo em direcção ao Atlântico. E como suave sede que nunca serena nem acalma, mais e mais ali se recolhia alheado dos afãs e vanglórias do mundo, de vez em vez mais mínimo se tornando para os negócios terrenos e mais se agigantando para os do céu. Tendo a correnteza do Tejo junto aos pés e os estaleiros pelas costas, postado ele entre o cadenciado matraquear de macetas, malhos e martelos, entre o ronronar de serras e serrotes e o marulhar das águas calmas, vejo-o eu, hoje, ainda ali, sentado numa rocha com a Bíblia sôbelos joelhos. Acabado de ler num Salmo o verso «eu te louvarei, Senhor, entre as nações, cantarei teus louvores entre os povos», logo soerguendo o olhar sobre a delicada laje das doces águas, o que vê? – Aproveitando a boa maré e os ventos favoráveis, três naves da Carreira das Índias zarpam não sabe ele bem para onde. O que, porém, lhe salta ao olhar e não pode ignorar, é o bulício na coberta de cada uma – ali vão gentes inebriadas de esperança e pelo vigor da aparência dos cascos será para muito longe! E há nelas outro pormenor, logo ele o percebe: cada piloto sabe que deve conduzir a nave pelo fundo canal, nunca próximo da margem, onde a lama do leito facilmente as empancaria! E não vê ele bem que cada quilha divide as águas, e em mais avançando, sem esforço, continuamente, apartando-as, abre uma estrada favorável? Sim, e o que ali vê no Tejo, assim no mar: a quilha divide, a nave passa, e em pós a ré, as águas se ajuntam, se abraçam e se irmanam como antes, não restando mais divergência nem outra mensagem da sua passagem.

Isso Frei João ali testemunhou pela primeira vez. Foi, de facto, em Lisboa que se certificou, qual nave fagueira, de que assim sempre fora e assim sempre desejará seguir sendo no mundo: caminhar, caminhar rumo ao céu, unindo, sem dividir. Sim, como não se ver a si mesmo como mínimo batelinho, ladeando a amurada da grande nau da Igreja, avançando incitado pelos dois remos da colegial e fraterna santidade, sem jamais as águas ferir? Ou como não se ver a si qual nau voando para o céu, sem prisão nem atadura a criatura alguma, sem jamais ferir nem ao de leve lesar a nenhuma! Sim, aquela hora, quanto não terá ele, frade descalço e irmão universal dos espelhos d’água, das brisas suaves e dos amorosos entardeceres, das escuras noites, das frescas manhãs e do secreto embaço das neblinas, sim, quanto não terá ele de arduamente remar p’las águas que por diante de seus pés ainda se lhe apresentem?

Desde há muito que o lema de seus descalços dias é dar tudo pelo Tudo, razão pela qual, aquela hora e naquele lugar, a sua ocupação mor foi a de mergulhar mais e melhor se ancorar na leitura da Bíblia. Sim, em Lisboa, nas margens do oceânico lago, todo ele foi contemplação, silêncio e palavra. Terra, mar e céu. Batel, remo e leme. Casa, caminho e peregrinação. Hino, oração e bênção. Paz. Tudo, tudo ali foi por ele delicadamente entretecido no tear do seu coração com o fio d’oiro da oração!

3.           Por fim, plenamente restaurado, ágil e sereno regressou a seu ponto de partida pelo mesmo caminho, corrido ao invés. Em casa, ignorantes e fascinados todos lhe perguntarão pela monja das chagas. O que, porém, aqueles parecem ignorar, é que a fé é acreditar sem ver e que ele só bebe da do Lado de Cristo pelo que, caminhando o regresso, ao se percatar que seu companheiro carrega paninhos carregados de tinta – que não de sangue, e mesmo que o fora! – logo fez com que deles se despojasse, atirando-os a um rio, dando-lhe a entender que nada daquilo que portava era fruto de santidade, mas de fingimento.

Não apenas nesta, mas sempre, conduziu-se segundo o modo em uso na Descalcez: acompanhado dum sócio, caminhavam apoiados por jumentinho humildemente aparelhado, onde cada um se sentava em alternada fraternidade. Algumas vezes, porém, para descanso da montada, Frei João dispensava-a alegremente. Posto que caminhasse a pé cantava hinos a Nossa Senhora, Salmos, versículos do Cântico dos Cânticos ou o capítulo 17 do Evangelho de São João; mas se na garupa do asnilho, lia a Bíblia que, por alguma razão a conhecia toda de cor. E algumas vezes ficava ali tão absorto nos divinos mistérios, que caía da montada! Estatelando-se sem maiores consequências, levantava-se; e beijando o Escapulário, sacudia o hábito da Virgem, e seguia caminho.

Ah!, e quem me diz a mim que aquelas viagens, aqueles nossos montes, soutos e ribeiras, aquele sol e longínquos caminhos lhe não inspiraram a alma ou lhe não incendiaram o coração, como a pastorinho que de Deus fale a cabeças que não sabem latim! Poderiam não saber, não, mas da convicção e fervor do itinerante pregador não serão nem tardos nem falhos. Sim, o que não quero ignorar é que os caminhos de Portugal lhe foram pacíficos, fecundos e inspiradores.

4.           O perfume da presença de Frei João da Cruz perdurou largamente em Portugal, o que não é para admirar já que, segundo o cronista Frei Belchior de Santa Ana, de todos os capitulares foi quem mais saudades deixou em Lisboa, porque «nunca houve conversação nem mais branda, nem mais singela, nem mais desassombrada que a sua; por nunca ter faltado às suas obrigações; por trazer os olhos sempre cheios de alegria e de pureza, a boca de sorriso e de modéstia, o semblante todo de boa graça e de autoridade; nas palavras a ninguém ofendia e a todos melhorava; era de tão notável a doçura com que falava de Deus que afervorava e recolhia os ânimos dos que o ouviam e vestia os interiores de tão firmes propósitos de nova vida que só ouvi-lo bastava para fazer os tíbios fervorosos; o vê-lo era paz, o falar-lhe aproveitamento, o ouvi-lo consolação e renovação de espírito».

Em muitos lugares de Portugal, com destaque para a vila de Aveiro, quando ainda era apenas Bem-venturado, aquele povo tratava-o como O Santo de Aveiro, visto ser ali considerado como o médico protector contra todas as maleitas e pústulas do corpo, tal como o testemunharam perante tribunal canónico o dr. António Bastos, miraculado por sua intervenção duma doença incurável, e outras trinta e sete testemunhas daquela vila e seus largos arredores.

No próximo dia 14 de dezembro, dia litúrgico de nosso Santo Pai, começaremos o jubiloso ano do tricentenário da sua canonização e os cem do seu doutoramento. Este texto para aí aponta. A epígrafe que o assinala remete para a adusta cova para a qual, em Segóvia, tanto ele gostava de conduzir-se e recolher-se em nocturnas contemplações. De covas e de caminhos se procurarão fazer os próximos textos; porque de esticados caminhos e de esquecidas covas sempre se fizeram as vidas dos herdeiros de Elias.

Que, pois, a celebração deste jubiloso ano de São João da Cruz nos ajude a nós, lusos – que nunca fomos de bem nos governar ou de nos deixar governar –, a alcançar a perfeita união com Deus, pelo alcance da compreensão de que «não se pode chegar a esta união sem grande pureza, e que esta pureza não se alcança sem grande desnudez de todas as coisas criadas» – San Jvan de la Cruz dixit.