Dizem os teólogos que a fé
é um hábito da alma certo e obscuro.
A razão de ser hábito obscuro é porque faz crer em verdades
reveladas pelo próprio Deus,
as quais estão acima da luz natural,
e excedem todo o entendimento humano, sem proporção alguma.
Daqui vem que, para a alma,
esta excessiva luz da fé que se lhe dá, é obscura treva,
porque o mais priva e vence o menos, assim como a luz do sol
priva outras quaisquer luzes,
de maneira a não parecerem luzes quando ela brilha
e vence a nossa potência visual, de maneira que, antes a cega
e priva da vista do que lha dá,
porquanto a sua luz é muito desproporcionada e excessiva à potência visual.
Assim, a luz da fé,
pelo seu grande excesso,
oprime e vence a do entendimento, a qual, de si, só se estende
à ciência natural;
embora tenha potência para o sobrenatural, quando nosso Senhor
a quiser pôr em acto sobrenatural.
S 2, 3, 1.


