Houve um homem. Viveu no Séc. XVI. Vivia pobre quando o ouro luzia. Dizem que viveu muito lá para trás, mas não é verdade. Ele vive hoje. Continua vivo no fogo da sua palavra. Nas asas do vento que impelem o seu exemplo até nós. No fogo que o atraiu indómito para o céu.
Houve um homem. Era um zé ninguém. (Que me perdoem os Zés). Não erguia a voz. Como os carvalhos jamais torcia. Jamais gemia. Não esmagava ninguém. Não pisava sequer as ervinhas. Era irmão dos pardalitos, das águias. Das faúlhas, da arraia miúda. Amava os bichos. As raposas. Os gamos. As lebres. As formigas. As frescas brisas das manhãs. As tardes ardentes como fogueiras. A amplidão dos caminhos (interiores).
Houve um homem. Chamava-se João. Ensinou-nos a não colher flores. A amar os regatos. O pôr do sol. A aurora. A não viver à flor da pele. A beber pela concha das mãos a água viva da fonte que, incessante, mana e corre. A mergulhar nos oceanos inteiramente por descobrir. A voar direitos ao céu.
Houve um homem. Quis ser pobre, apenas pobre. Nada mais que pobre. Só pobre. Pobre, pobre. Sem arrimo. Como os que se sentam no chão das praças e dos salões dos palácios. Amou a luz. O fogo. O incêndio. Amou-os. Abraçou-os. Incendiou-se, incandesceu-se até às cinzas. Como gentil candeia em nossas escuras noites.
Houve um homem. Não temeu as pedras, as setas, os espinhos. Nem abrolhos. Amou a cruz. Abraçou-a. Levou a sua. A nossa. E continua carregando-as. Da Cruz, por ele, é o nosso apelido. Dizem que «amava a Cruz mais que o próprio Cristo». Não é verdade, mas reconheceu-a como janela firme de eternidade.
Houve um homem. Raso como o chão. Jamais mais alto que a sombra. Era simples como as pombas. Os seus pés nus pisaram pedras frias e escombros. As mansas mãos abençoaram. Os olhos elevaram para Deus, os irmãos, os pobres. Os famintos. (Não sei bem a ordem, e talvez não interesse, a não ser que todos eram primeiros na sua delicadeza e cuidado!). O coração fervia como uma panela.
Houve um homem. Grande como um abismo diante do abismo de Deus. Deus acocorou-se nele. Ele expandiu-se em Deus. Como um deserto que na primavera desperta feito tapete de florinhas.
Houve um homem. Gostava de festa. Gostava do Natal. Num bendito dia da Natividade do Senhor tomou da manjedoira a Sua imagem e, encantado, bailou extasiado com ela, cantando: «Meu doce e terno Jesus, se amores me hão de matar, agora têm lugar!». Morrer de amor pelo Menino. Haverá maior doce, melhor morte?
Houve um homem. Mostraram-no-lo santo há trezentos anos. Mas nós sabíamo-lo ainda antes disso. Feliz jubileu.


