Entrevista com o P. Carlos Gonçalves, um dos 45 rostos da FPCEUP

A Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP) cumpriu quarenta e cinco anos. No contexto das celebrações, aquela Escola promoveu o projecto editorial “45 ANOS, 45 PERSONALIDADES” que celebra a história da FPCEUP, preservando a sua memória coletiva para as gerações futuras. Nos últimos 45 anos, inúmeros docentes, investigadores e técnicos de gestão contribuíram de forma decisiva para o crescimento e para a consolidação da Faculdade. É a essas pessoas que este projeto presta homenagem através de 45 entrevistas a publicar semanalmente até outubro de 2026. A seleção destas 45 personalidades produziu um corpus disponível a ser entrevistado, cujos testemunhos representam uma singularidade no contexto de tantas outras que, quotidianamente, contribuem para a consolidação de um trabalho de referência no âmbito do panorama nacional e internacional.

Com a devida vénia, esta entrevista foi retirada do sítio daquela Escola: https://www.up.pt/fpceup/pt/45-PERSONALIDADES/

Carlos Manuel Gonçalves construiu um percurso singular, conciliando a vocação religiosa com a vida académica. Sacerdote da Ordem dos Carmelitas Descalços e docente-investigador na FPCEUP até 2024, navegou entre dois mundos distintos, mas complementares, que moldaram profundamente a sua visão do ensino, da investigação e do mundo. Foi coordenador do Serviço de Consultoria e Orientação Vocacional e de Aprendizagem ao Longo da Vida e participou em vários órgãos de gestão da FPCEUP, incluindo a Comissão Coordenadora do Departamento de Psicologia, o Conselho Pedagógico e a Assembleia da Universidade do Porto.

Quais foram os principais desafios e conquistas do seu percurso na FPCEUP? Há algum momento, projeto ou colaboração que considere ter sido particularmente marcante para si e para a Faculdade?

Carlos Manuel Gonçalves: O principal desafio foi a minha candidatura à Licenciatura em Psicologia em 1987, com 33 anos de idade, no contingente de supranumerário, com apenas 2 vagas, como licenciado em Teologia, na Universidade Pontifícia de Salamanca, em 1977. A experiência inicial na FPCEUP foi surpreendente para os meus colegas de curso, jovens entre os 18 e 19 anos, e para os próprios docentes, ao confrontarem-se com um estudante adulto, nada comum naqueles tempos. Obviamente que a minha presença diária nas aulas era fator de questionamento. Mas nem colegas nem professores me identificavam como frade e sacerdote. Intencionalmente, não me autorrevelei aos colegas e aos professores para não suscitar preconceitos, que predominavam nestes tempos. Foram-me identificando progressivamente através na minha forma singular de ser e estar. Após a Licenciatura, em 1994 candidatei-me a uma vaga como Assistente Estagiário, na área da Psicologia e Orientação Vocacional, com a intencionalidade de continuar a minha formação em Psicologia, através da docência e da investigação. Após um concurso polémico, precisamente porque no meu CV constava a licenciatura em Teologia e publicações exclusivamente na área da espiritualidade, fui selecionado, de forma não consensual, para lecionar as aulas práticas de Psicologia Orientação Vocacional, área de investigação onde realizei o Mestrado (1997) e o Doutoramento (2006) sob a orientação do meu grande amigo e saudoso Joaquim Coimbra. Ao longo dos 29 anos da minha carreira de docente e investigador, senti uma forte integração nesta Comunidade, onde fui construindo profundas amizades com os colegas de várias mundividências, que progressivamente foram desconstruindo estereótipos acerca a minha forma singular de ser e estar no mundo. Na minha relação com os estudantes, que considero a minha área experiencial privilegiada, intencionalmente nunca me autorrevelei nas minhas convicções religiosas nem na minha missão de sacerdote, mas procurei ser, de forma persistente, respeitador das múltiplas formas de estar e ler o mundo, focalizando-me, a partir da construção de uma relação próxima e segura, nos objetivos de ensino aprendizagem nas várias Unidades Curriculares que lecionei ao longo destes 29 anos.

Há algum momento, projeto ou colaboração que considere ter sido particularmente marcante para si e para a Faculdade? 

CMG: Para além de momentos relevantes na minha carreira de docente e de investigador na participação de múltiplos Congressos internacionais, em representação da FPCEUP, o momento mais marcante da minha carreira foi a surpreendente e ternurenta homenagem que os ex-alunos e colegas docentes de várias gerações me prestaram na última aula que estava a decorrer no dia 21 de maio de 2024, às 10 horas, expressão dos vínculos consistentes que fui construindo ao longo dos 29 anos na minha missão de docente e investigador.

Como vê a evolução das áreas da Psicologia e das Ciências da Educação nas últimas décadas, sobretudo no que respeita ao seu impacto na sociedade e em que medida pensa que a FPCEUP contribuiu para essa evolução?

CMG: Ao longo das duas últimas décadas, a nossa FPCEUP tem-se afirmado como pioneira na docência e na investigação. Daí a enorme procura por parte dos estudantes e de jovens investigadores nos cursos de Mestrado e do Programa Doutoral. Atualmente há um grande grupo de investigadores pós-doutoramento com uma grande produção de artigos científicos, em várias áreas de investigação, em revistas internacionais, com elevado impacto, dando visibilidade à nossa Instituição. Se tivesse de dar um conselho à geração mais jovem, no momento em que começou a colaborar com a FPCEUP, o que diria? Ou, com base na experiência que acumulou, que conselho daria a alguém que está agora a começar na FPCEUP? CMG: Como venho salientando, uma das dimensões que mais valorizei ao longo da minha carreira foi a articulação da docência com a investigação científica. Por isso, a mensagem que passaria aos jovens docentes/investigadores seria a de que não basta a produção de artigos ISI indexados em revistas de Rankings elevados. Urge privilegiar a capacidade de comunicação, na construção de relações empáticas, com a geração de jovens estudantes, em contexto da sala de aula.

A FPCEUP celebra 45 anos. Como imagina que será, ou como gostaria que fosse, a Faculdade, daqui a 45 anos?

CMG: Espero que a FPCEUP continue a inovar, através de práticas docentes e de investigação com impacto na cultura contemporânea e na construção de saberes, contribuindo de forma inovadora para a transformação das sociedades contemporâneas, enquanto espaço de convivência mais solidária, rumo à igualdade de direitos e deveres num mundo mais justo.