Ano Jubilar de São João da Cruz

— CANONIZAÇÃO —

O ano de 1926 é um ano jubilar para a Ordem dos Carmelitas Descalços em que somos convidados a (re)descobrir São João da Cruz, o poeta enamorado de Deus, colaborador de Santa Teresa de Jesus na fundação do Carmelo Descalço e Doutor da Igreja. Comemoramos, assim, o tricentenário da canonização do Santo e o centenário em que foi declarado Doutor da Igreja. Neste e no próximo número vamos refletir sobre os acontecimentos que estão na origem deste jubileu e das celebrações que, um pouco por todo o mundo, irão ter lugar.

Frei João da Cruz morreu em Úbeda no dia 14 de dezembro de 1591, em «odor de santidade». Os que o conheceram e privaram com ele tinham a certeza de terem vivido com um santo. Não tinham dúvidas da sua santidade. Morreu, aliás, como viveu: testemunhando a santidade de Deus que humildemente acolhera como um dom. Por isso, não é de estranhar que, bem antes de se começarem os trâmites oficiais dos Processos de beatificação e canonização, os seus primeiros biógrafos – Afonso da Madre de Deus, José de Jesus Maria (Quiroga) e Jerónimo de São José – tenham recolhido numerosas notícias para incluir nas respetivas biografias e, pronto, se tenham começado a tomar diligências para registar, recorrendo a testemunhas oculares, a vida, as virtudes e a santidade do “fradito” que era pequeno de estatura, mas gigante na santidade. Em 1598 – apenas sete anos depois da sua morte – já se encontram registos dalgumas declarações acerca de Frei João dos que mais e melhor o conheceram, tais como lFrei João Evangelista, seu confidente e confessor. Isto, de acordo com as ordens do Provincial de Granada, Frei Bernardo da Conceição, que voltou a renovar este desejo na Ordem, em 1618.

Em 1613, o Prepósito Geral da Congregação espanhola, José de Jesus Maria, nomeou procuradores junto dos bispos para que fossem dando os passos necessários para o processo de beatificação. De 1614 a 1618 abriram-se diversos processos informativos nas cidades onde João da Cruz tinha deixado as suas pegadas de santidade. O Padre Afonso da Madre de Deus ficou responsável por terminar a maior parte destes processos que foram enviados para Roma em cópias autenticadas. A Congregação dos Ritos de então, logo emitiu ordem para que se iniciasse o processo apostólico.

Frei João do Espírito Santo, Prepósito Geral dos Carmelitas Descalços deu continuidade a esta tarefa confiando-a a Frei Afonso da Madre de Deus. Em 1628 os interrogatórios terminaram e foram enviados para Roma. Mais de vinte cidades de Espanha, Portugal e Itália estiveram envolvidas em todo este processo apostólico.

Apesar de todas estas diligências, dois decretos do Papa Urbano VIII (de 1625 e 1634) atrasaram o Processo, uma vez que, como se tinha proibido dar culto a imagens e relíquias de pessoas mortas em odor de santidade, era necessário iniciar um processo de «non cultu». Desgraçadamente, em Úbeda (cidade onde João da Cruz morreu) e em Segóvia (local onde estava sepultado), as manifestações de veneração de Frei João da Cruz ultrapassaram o foro privado e ganharam expressão de veneração pública. Só dezenas de anos depois da promulgação destes decretos é que estes foram conhecidos em Úbeda e Segóvia. Apressaram-se, então, em fazer desaparecer os sinais externos do culto público e os restos mortais de Frei João da Cruz foram, literalmente, enterrados. Instruiu-se, então, por iniciativa da Ordem, o referido Processo que enviado para Roma não teve qualquer tipo de influência na causa. Para avançar com o Processo foi necessário pedir ajuda ao rei Filipe IV que escreveu ao Papa a 16 de abril de 1648. Roma solicitou o processo de «non cultu», ignorando o que tinha sido levado a cabo pela Ordem. Este processo inquisitivo terminou entre 1649 e 1651. Paralelamente estabeleceu-se outro procedimento para o estudo dos escritos do Padre Frei João da Cruz, levado a cabo por um teólogo carmelita de renome – João Batista Lezana – que foi o censor e, no espaço de três meses, emitiu um juízo ponderado e elogioso sobre os mesmos.

A 6 de outubro de 1674 o Papa Clemente X aprovou os milagres para a beatificação de Frei João da Cruz. Assinou, depois, a Bula Spiritus Domini no dia da solene beatificação que ocorreu a 25 de janeiro de 1675, para rejubilo da Ordem e dos devotos.

A canonização só ocorreu passados mais de cinquenta anos, a 27 de dezembro de 1726 pelo papa Bento XIII que assinou a bula Pia Mater Ecclesia.

Passaram, por fim, 135 anos para que a Igreja reconhecesse oficialmente a santidade de São João da Cruz, reconhecido, venerado e amado como santo desde a sua morte. Ainda hoje a sua santidade nos desafia a buscarmos, com determinação, a intimidade com Deus cujo «olhar é amar» e deixarmo-nos guiar por Aquele que nos criou e nos quer felizes.