Oh! quem pudesse dar agora aqui a entender e exercitar e saborear que coisa seja este conselho
que aqui nos dá nosso Salvador de nos negarmos a nós mesmos, para que vissem os espirituais
como é diferente daquilo que muitos pensam, o modo que neste caminho devem levar!
Pois entendem uns que basta
qualquer forma de afastamento e de reforma nas coisas;
outros contentam-se em se exercitar de qualquer maneira nas virtudes,
continuar a oração
e seguir a mortificação,
mas não chegam à desnudez e à pobreza, ou ao alheamento ou à pureza espiritual, que tudo é o mesmo,
a que nos aconselha o Senhor; porque andam mais a alimentar
e vestir a natureza com consolações e sentimentos espirituais,
que a desprendê-la e negá-la,
numa e noutra coisa, por Deus, pensam que basta negá-la
no que é do mundo,
e não aniquilá-la e purificá-la da propriedade espiritual.
De onde vem que,
oferecendo-se-lhes algo desta solidez e perfeição, que é a aniquilação
de toda a suavidade em Deus,
em secura, em sensabor, em trabalho,
(o que vem a ser a cruz pura espiritual,
e a desnudez do espírito pobre de Cristo)
fogem disso como da morte,
e só andam à busca de doçuras
e comunicações saborosas em Deus. E isto não é negação de si mesmo,
e desnudez de espírito,
mas guloseima de espírito.
No que se fazem espiritualmente inimigos da cruz de Cristo;
porque o verdadeiro espírito
antes busca o desabrido em Deus, que o saboroso,
e mais se inclina ao padecer que ao consolo,
e mais a carecer de todo o bem por Deus que a possuí-lo,
e às securas e aflições,
que às doces comunicações,
sabendo que isto é seguir a Cristo e negar-se a si mesmo,
ao passo que a outra maneira
é buscar-se a si mesmo em Deus, o que é muito contrário ao amor. Porque buscar-se a si em Deus,
é buscar os regalos e recreações de Deus; mas buscar a Deus em si,
é não só querer carecer de tudo isto por Deus,
senão inclinar-se a escolher por Cristo tudo quanto é mais desagradável,
quer seja de Deus, quer do mundo, e isto é amor de Deus.


