Ditos de luz e de amor

Os Ditos de luz e amor são sentenças ou colecções de sentenças espirituais que abrem horizontes e assinalam os obstáculos do caminho para a união de amor. «São uma espécie de comprimidos ascético-místicos, fruto condensado de elevados princípios doutrinais, experiências amadurecidas e finas análises psíquicas, com que o grande escritor do Carmelo amassou toda a sua admirável doutrina»1.

É um dos campos preferidos pelo doutor místico, como mestre e como escritor. O sistema de entregar pequenas orientações por escrito vem dos primeiros dias ou anos do seu ministério de direcção espiritual. Familiarizada com o estilo agudo e denso das suas sentenças e avisos, santa Teresa denomina-o de seu “Senequita”: um homem de sentenças curtas, avisos e axiomas. Nos Ditos de luz e amor abundam as sentenças feitas de frases curtas, lapidárias, ines-quecíveis; carregadas de vida, doutrina e sensibilidade artística.

Apesar de alguns se terem extraviado ou estragado, ainda se conserva um mostruário da abundante produção sãojoanina nesta modalidade de ma-gistério espiritual. Somando os que se conservam autógrafos com os de outras colecções e edições, contam-se cerca de 180. A estes acrescentam-se os 17 avisos – Graus de perfeição – que seguem aos Quatro avisos a um religioso. No total, são uns 200 Ditos de luz e amor.

Felizmente chegou até nós uma rica antologia destes ditos, preparados pelo próprio S. João da Cruz. Trata-se de um caderno de 22 páginas com 78 ou 83 avisos, conforme as contagens, pois o autor não os numera. «Este pequeno tratado foi dado pelo nosso padre frei João da Cruz à madre Francisca da Mãe de Deus, monja de Beas».2

Propriamente não são avisos, ou pelo menos não é esse o estilo que neles predomina. O que predomina é a fórmula axiomática de sentenças que condensam doutrina e experiência. Também apresentam normas concretas de vida.

Os temas que prevalecem são os seguintes: a direcção espiritual, a ne-gação e o desprendimento, o valor e as funções da razão natural na vida de fé, o amor no centro, o recolhimento, o temor de Deus e, como maior novidade, a dignidade do pensamento do homem e a sua função teologal na vida de fé e de amor. O pensamento a que se refere não se contrapõe à fé, mas ao afã de se guiar por visões ou sentimentos.

Cada um destes avisos parece encarnar integramente o sistema, não à maneira de fragmentos, mas como outras tantas perspetivas de toda uma única realidade. Eles contêm uma densidade que deslumbra pela simplicidade da sua fórmula e profundidade do seu conteúdo. Há mística e ascética, sensi-bilidade e gérmens de construção intelectual. É obrigatório aplicar-lhes o princípio formulado no prólogo do Cântico Espiritual: «Não penso descrever agora toda a extensão e riqueza que o espírito do amor fecundo nelas gerou. Seria ignorância minha pensar que os ditames de amor em inteligência mística, como são os destas Canções, se poderiam explicar claramente por palavras… Parece-me ser melhor assim, porque os ditos de amor devem-se declarar em toda a sua extensão, sem os limitar a um sentido preciso ao qual nem todo o paladar se acomoda. Cada um vale-se deles conforme o seu modo e capacidade de espírito».

A Oração da alma enamorada merece uma menção particular, devido à sua força mística e ao seu lirismo. Ela arranca timidamente com a recordação dos pecados e um amor resignado. Levanta os olhos para o céu e abre-se à esperança. Cai na conta de que Deus já lhe perdoou tudo e lhe deu tudo, dando-lhe o seu Filho Jesus Cristo. Embriagada por um amor ardente e au-daz, exclama: Meus são os céus… É um crescendo perfeito, em que todas as fases e experiências são vividas no amor e no diálogo com Deus.

  1. SILVERIO DE S. T., em BMC 13, p. XXXII. ↩︎
  2. Informação recolhida no Códice de Burgos. ↩︎