Revestidos de Maria, Movidos pelo Espírito. Uma Aliança renovada: o Escapulário

Queridos irmãos e irmãs da grande família do Carmelo Teresiano, irmãs, seculares, frades, congregações associadas, sacerdotes que viveis a espiritualidade carmelita e todos os nossos amigos e familiares. Saúdo-vos com grande alegria neste dia da Solenidade da Virgem do Carmo, onde quer que estejais e que momento estejais a viver.

Comecei este mês de julho na Terra Santa, no nosso Santuário Stella Maris, no Monte Carmelo, sob o olhar de Maria, junto à Fonte de Elias, partilhando com os meus irmãos e irmãs daquelas terras, a quem agradeço o testemunho e a preciosa presença. Coloco toda a Ordem sob a proteção e amparo de Maria, com plena confiança no seu cuidado maternal.

Gostaria de partilhar convosco três ideias: revestidos pelo escapulário; movidos pelo Espírito Santo; e testemunhas da experiência de Deus.

Nós, os carmelitas, sentimo-nos filhos e irmãos prediletos de Maria. Foi-nos concedido um sinal deste amor no Escapulário, que simboliza a sua presença e o bater de coração em cada um de nós. Queremos viver sempre revestidos de Maria. Ela, no dizer de S. João da Cruz, «esteve, desde o princípio, sempre movida pelo Espírito Santo» (3S 2,10). Também nós, como ela, dóceis ao Espírito Santo, queremos estar sempre em caminho, guiados pelo seu olhar e pela sua mão, acolhendo este momento histórico com humilde ousadia e intrépida alegria.

Gostaria de vos convidar neste dia, de forma especial, a deixar que Maria nos conduza de novo àquela primeira experiência de oração no Espírito, à simplicidade do amor inicial, a mergulharmos numa oração profunda que nos leve, como a Teresa, a irradiar vida de oração e paixão por Jesus. Mais uma vez aprendizes e, ao mesmo tempo, mestres com a nossa vida, a partir desta experiência e do dom que recebemos.

1. O dom do Escapulário e a dimensão mariana do Carmelo

1.1 Fazer memória agradecida

Este ano, toda a família do Carmelo, OCarm – OCD, e todos aqueles que têm devoção ao Escapulário, celebramos os 775 anos do dom do escapulário.

Cumprem-se os 25 anos da mensagem que o Papa João Paulo II dirigiu aos dois superiores gerais da OCarm e da OCD sobre o escapulário, em 25 de março de 2001, e da carta circular

«Com Maria, a Mãe de Jesus, a Virgem na vida do Carmelo», dos dois superiores gerais, Joseph Chalmers e Camilo Maccise; dois excelentes documentos que vos convido a reler e a meditar, pela sua profundidade teológica e pela sua abordagem pastoral.

1.2. O desafio permanente de renovar o marianismo

O escapulário é um sinal da dimensão mariana da nossa vocação: viver em obséquio de Jesus Cristo, imitando a Virgem Maria. Aqui encontramos uma síntese da nova vocação e consagração, seja batismal ou religiosa.

Na linha desses documentos, pretendemos continuar a aprofundar a teologia, a espiritualidade e a pastoral do escapulário. Os recentes inquéritos a toda a Ordem, sobre a nossa vivência mariana, revelam o profundo apreço da nossa família pelo dom do escapulário, bem como o lugar central que continua a ter na nossa pastoral. Este movimento de convite à renovação e ao aprofundamento do marianismo e à devoção ao escapulário está enraizado na necessidade e na urgência de uma teologia, espiritualidade e pastoral evangélicas autênticas. Revestidos de Maria, o sinal simples e humilde do escapulário recorda-nos a necessidade de regressar à beleza, frescura e ousadia do primeiro amor. Maria reaviva em cada um de nós a peregrinação da esperança num mundo que enfrenta a crescente incerteza do amanhã. Revestidos de Maria, aceitamos o desafio de avançar rumo ao amanhã, com a certeza confiante de que Maria, a Mãe e a Irmã não nos abandonará e estará sempre ao nosso lado.

Há vários anos que estamos empenhados neste esforço, convidando todas as carmelitas, todos os seculares e frades do Carmelo a cuidar da dimensão mariana, da intimidade com Maria, do diálogo com ela, como uma escola de renovação da nossa amizade com Jesus e da revitalização da nossa vida de oração. Chegou o momento de nos questionarmos novamente sobre a nossa verdadeira vida de oração e sobre o crescimento da nossa amizade com Jesus. Tudo o que se refere a Maria conduz-nos à experiência de sermos filhos no Filho. Maria conforma-nos à imagem do Filho das suas entranhas e convida-nos a sermos um com Ele. Tudo isto nos é recordado pelo escapulário, que é um compêndio desta Aliança com Jesus.

A partir da Casa Geral, pusemos em prática algumas sugestões e iniciativas: criámos um grupo de vida mariana; reunimo-nos periodicamente para refletir sobre este tema do nosso carisma; realizámos um inquérito a toda a Ordem com o objetivo de obter um panorama detalhado do estado do nosso marianismo nos aspetos carismático, teológico, devocional e pastoral; criámos um blogue mariano https://maristellacarmel.com, que vos convido a visitar, onde publicamos tudo o que de mais significativo nos chega no âmbito do Carmelo; as cartas que enviei nas últimas celebrações da Solenidade de Nossa Senhora do Carmo; a animação constante nas visitas pastorais e fraternas por todo o mundo… além das numerosas iniciativas que tenho observado em tantas comunidades e circunscrições da Ordem: cursos de mariologia e marianismo, semanas de estudo, publicações, peregrinações a santuários marianos, celebrações… Tenho a impressão de que este impulso mariano foi recebido por muitos, como um apelo oportuno e necessário, para este tempo que estamos a viver. Sentimos sempre que Maria é o impulso de um novo Pentecostes para a Igreja e para o Carmelo. É assim que o sinto em todos os recantos do mundo que tenho o privilégio de visitar.

Existem outras iniciativas, desejos e projetos que este grupo de vida mariana, que criámos com os irmãos da nossa casa de Fátima, está a promover: um encontro de mariólogos carmelitas, a organização de um congresso teológico sobre a espiritualidade mariana da Ordem. Consultámos os teólogos sobre as perspetivas e os aspetos marianos e mariológicos que precisamos de explorar e estudar. Está em projeto um encontro de frades carmelitas que trabalham nos santuários marianos para debater a pastoral e a devoção mariana, a elaboração de temas formativos fundamentais do nosso carisma e a sua relação com Maria…

Ao recordar os passos que demos nos últimos anos e aqueles que pretendemos dar, quero também agradecer a valorização que os capítulos provinciais fizeram deste movimento

renovador. Confiamos todo o caminho percorrido, e aquele que temos pela frente, a Maria, Rainha e Formosura do Carmelo, para que cheguemos ao cume do Monte que é Cristo, revestidos do escapulário de Maria.

2. A Virgem Maria e São João da Cruz

2.1 Uma relação afetuosa e íntima

Para além das celebrações por ocasião dos 775 anos da entrega do escapulário, neste ano de 2026 celebramos o ano jubilar de São João da Cruz: os 300 anos da sua canonização e os 100 anos da sua proclamação como Doutor da Igreja. Não são muitas as referências a Maria nos escritos e na vida de São João da Cruz; no entanto, podemos dizer que se trata de uma presença intensa e profunda. Temos dele algumas passagens de uma riqueza doutrinal e teológica extraordinária.

Algumas biografias indicam que, nos primórdios da sua vocação, a preferência pelo Carmelo se deveu à dimensão eminentemente mariana e contemplativa da Ordem. Quando tencionava transferir-se para a Ordem da Cartuxa, Teresa de Jesus conquista-o para o seu projeto fundacional, convidando-o a colaborar na reforma do ramo masculino. Ele aceitou o desafio de continuar a usar o hábito e escapulário, na Ordem de Maria, com o estilo de irmandade e recreação de Santa Teresa. Outros pormenores da relação e da presença de Maria na vida do Santo chegaram até nós envoltos em lenda e não são tão relevantes quanto o que os seus escritos recolhem sobre Maria, como reflexo do seu pensamento e da sua vivência mariana.

2.2. Doutrina substancial

Os escritos sãojoanistas relativos a Maria são de grande densidade teológica e espiritual. Entre estas passagens, gostaria de destacar, como uma das mais valiosas, a que nos foi deixada no terceiro livro da Subida ao Monte Carmelo: «Eram assim as da gloriosíssima Virgem Nossa Senhora, a qual, estando desde o princípio elevada neste alto estado, [das almas perfeitas] nunca teve gravada na sua alma forma alguma de criatura, nem se moveu por ela, mas foi sempre movida pelo Espírito Santo». (3S 2,10). Recordo-me como o padre Otilio Rodríguez, de feliz memória, dizia que esta citação vale por todo um tratado de Mariologia (citado por Ismael Bengoechea em Ephemerides Mariologicae 31 (1981), p. 54).

Esta docilidade ao Espírito Santo, e se me permitem a expressão, este dançar como Maria ao som da música do Espírito, ao ritmo do Espírito, constitui o exercício íntimo que gostaríamos de lhe pedir que nos ensinasse e encorajasse: não querer dançar ao gosto de ninguém, nem mover-nos por outra ambição ou desejo de agradar, ou por medo de não sermos o que os outros esperam de nós. Pedir a Maria esta fidelidade e delicadeza de coração. A Virgem Maria foi elevada desde o início a «este alto estado» de união de amor com Deus; nós, com toda a nossa história, o nosso passado, o nosso percurso, feito de acertos e fragilidades, de fracassos e conquistas, tanto nas dificuldades como na prosperidade, não ficamos presos na negatividade nem bloqueados pela nossa pequenez; abrimos sempre o coração, à porta da gruta, como Elias, ao vento que moveu toda a vida de Maria e fez dela um Jardim, o Carmelo da sua complacência. Invocamos Maria para que nos torne fiéis a um amor, enraizados neste desejo do Espírito de transformar a nossa vida e as nossas comunidades à imagem de Jesus. Verdadeiramente espirituais, marianos, verdadeiros carmelitas.

2.3. Interpelações de grande atualidade

Vivemos uma época desafiante e instável, experimentamos o decréscimo em muitas partes da Ordem e ao mesmo tempo, o crescimento noutras, mas sempre no contexto de uma grande incerteza. Somos chamados a repensar as estruturas e aquilo que, noutros tempos, era considerado imutável. O texto da Declaração sobre o Carisma expressa-o lindamente no número 3: não devemos preocupar-nos tanto com o futuro, mas sim com a fonte escondida da qual nasce e se alimenta a nossa esperança. Maria ajuda-nos a discernir o que é essencial e o que é relativo neste tempo. Pedimos-lhe luz para sabermos escolher e para sabermos dar um passo em frente ou um passo para o lado.

Vivemos uma época que não nos pede autossuficiências, nem que nos deixemos levar pela nostalgia. São João da Cruz, acima de tudo um buscador da união com Deus, diz-nos que essa união foi sempre impulsionada pelo Espírito Santo. O que é nos faz mover, a nível pessoal e comunitário, de forma preferencial? Também os discípulos estavam com as portas fechadas por medo dos judeus. A tentação do quarto fechado é sempre uma ameaça face à novidade de cada época. E sabemos que os períodos mais fecundos do Carmelo foram precisamente aqueles em que se experimentou mais intensamente a fragilidade, a perda, a perseguição ou a vulnerabilidade. Os nossos santos são mestres em deixar-se mover pelo Espírito nos momentos em que a tentação da fuga se intensificava. O Espírito e Maria pedem-nos uma escuta atenta, escolhas corajosas e não motivadas pelo medo ou pela falta de confiança; convidam-nos a arriscar a audácia da fé, a humildade e a prudência, juntamente com a sabedoria de quem sabe reconhecer quando chegou o momento de empreender um novo caminho, encerrar uma presença ou iniciar uma experiência inovadora com simplicidade. O que nos move e de quem aceitamos a ajuda para discernir? Será que chamamos Espírito Santo ao nosso próprio desejo? Maria, leva-nos pela mão para nos colocares diante do sopro do Espírito, no caminho que nos conduz ao futuro que Ele deseja e sonha para nós.

Nos nossos dias, cresce o desejo e a sede de Deus; percebe-se uma busca sincera de Deus em muitos âmbitos da sociedade e da juventude. Muitas vezes, à sua maneira e à margem dos canais institucionais, muitos aproximam-se dos santuários marianos, atraídos por um «não sei quê». Como poderíamos apresentar-lhes a Virgem Maria como aquela que é sempre Mãe, que viveu em plenitude aquilo que eles procuram e que, quando lhe falam com simplicidade e sinceridade, ela os escuta? Como facilitar esse encontro entre tantos buscadores insatisfeitos e a Virgem Maria nesses lugares onde ela está tão próxima, e encorajá-los a empreender um caminho de interioridade, de espiritualidade, de oração?

A nossa tradição tem honra de afirmar que o Carmelo é totalmente mariano. Queremos ser inteiramente de Maria e transmitir, como seus irmãos e filhos, a aventura, a experiência da oração e da intimidade com Jesus que, neste momento da nossa história, é chamada a renovar-se.

3. Novos passos, com Maria

3.1. Deixarmo-nos guiar pelo Espírito

Na carta que dirigi aos capítulos provinciais, escrevi: «Propomos aos capítulos que incluam no projeto provincial um tema fundamental que consideramos urgente reavivar: a nossa experiência de Deus e da oração mental, tanto pessoal como comunitária. O carmelita é mistagogo de uma experiência vivida». E, depois, pontualizava: «Como regressar à oração teresiana e ser testemunhas, mistagogos dessa experiência?»

Este novo desafio que lançámos a toda a Ordem toca outra dimensão fundamental da nossa identidade: somos eminentemente orantes, missionários e fraternos. Quando olhamos para o Monte Carmelo, para aqueles nossos primeiros irmãos e para aqueles que seguiram os seus passos na Europa, para além da sua experiência mariana, identificamos como elemento distintivo o facto de terem sido homens de experiência de Deus. Enche-me de esperança pensar que nos estamos a abrir a uma época, em que as discussões ideológicas dão lugar à necessidade de uma comunhão empenhada em voltar a dedicar tempo real, espaço de qualidade e densidade teológica à nossa oração no Carmelo, para que a ensinemos, transmitindo-a, sobretudo pelo exemplo, porque nos veem praticá-la e nos reconhecem como homens de oração coerente.

Com efeito, todo aquele que se deixa conduzir pelo Espírito Santo (Gal 5,16a), como diz São Paulo, penetra no mistério do Deus vivo e verdadeiro. É o Espírito Santo quem nos une a Jesus e, com Ele, nos faz exclamar: «Abba, Pai» (cf. Gal 4,6; Rom 8,15-17). Formados especialmente por Teresa de Jesus, somos depositários de um tesouro de experiência no trato de amizade com Aquele que sabemos que nos ama (cf. V 8,5). E como podemos guardar um bem tão precioso só para nós, se hoje tantos o anseiam com urgência?

3.2. Permanecer em oração, com Maria

Para transmitir este tesouro que é a oração, não basta dar cursos sobre a arte de orar. É preciso ser, em primeiro lugar, homens e mulheres de oração, tanto a nível pessoal como comunitário. Um carmelita regressa constantemente ao silêncio da Casa de Nazaré, onde Maria e José só têm olhos para Jesus: amam-No, adoram-No e contemplam-No. Deste lar e desta Sagrada Família, nós, os Carmelitas de Santa Teresa, herdámos o ideal de Nazaré, tendo José e Maria, como mestres da intimidade com Jesus na vida quotidiana (cf. V 32,11). O mesmo nos ensinou o irmão Lourenço da Ressurreição, a viver esta relação com Jesus, seja na cozinha ou em qualquer tarefa. Presença ardente, que nos faz apaixonar. Com Maria (At 1,14), preparamo-nos para um novo Pentecostes no Carmelo, aquele que ela nos quer oferecer.

No Monte Carmelo, nestes dias, senti fortemente a confiança em Maria e o impulso para confiar como ela, diante do futuro, sabendo que Deus abrirá os caminhos que estamos prestes a enfrentar, com a simplicidade e a alegria de quem se sabe sustentada e movida pelo Espírito. Convido-vos a acompanhar-me, pobres e corajosos, nesta confiança, rendidos ao olhar de Maria, dando graças por esta solenidade com todos vós, meus irmãos e irmãs.

UMA FELIZ FESTA DE NOSSA SENHORA DO CARMO!

Stella Maris, Haifa, 16 de julho de 2026

fr. Miguel Márquez Calle
Superior General OCD