São João da Cruz,
contigo aprendemos que a vida é uma peregrinação em ânsias de libertação de tudo o que nos prenda e retenha, impedindo-nos de disfrutar da união com Deus. É uma busca, um grito de amor, tendo apenas em Deus «colocado o pensamento e o peito de amor mui ferido». É desejo que Deus tem de nós e desejo que nós temos de Deus.
São João da Cruz,
contigo aprendemos que o caminho é feito de verdadeira humildade, de sofrimento, bondade e silêncio.
Tu nos convidas a caminhar «sem outra luz nem guia, senão a que no coração ardia»; a seguir por um caminho estreito, mas simples, vivendo «aqui como peregrinos, pobres; tudo lá esperando».
Tu nos ensinas a caminhar «na fé obscura e verdadeira, na esperança certa e na caridade inteira».
Mestre do caminho estreito,
que conduzes à união com Deus: ajuda-nos a compreender que «é Deus, e só Ele, quem dá valor e sabor a toda a actividade, porque onde não se conhece a Deus, não se conhece nada»; que tudo e nada são atitudes do ser humano a caminho da meta da união com Deus: «o tudo» é a meta e as suas antecipações; «o nada» são as coisas e os pedaços de vida desligados que não têm relação com ela.
Mestre da fé,
tu nos ensinas que ela é um conhecimento baseado no amor que proporciona o sentido do divino: «por ela amamos a Deus, mesmo sem compreendê-lo»; que a fé e o amor são os guias de cego que nos conduzem a encontrar Deus, porque Deus é a substância da fé e o seu conteúdo, e a fé é o oculto e o escondido; o secreto e o mistério; que Deus se nos revela em Jesus Cristo, a quem temos de escutar.
Ajuda-nos a fundamentar a nossa vida numa fé mais sólida e purificada, que saiba prescindir dos apoios sensíveis. Que, pouco a pouco, fiquemos na fé nua, que é a que nos faz tocar Deus. Que ela nos leve a admirar a vida de Cristo, o seu caminho de sacrifício, entrega e verdade, e a imitá-lo num anseio de bem e de pureza.
São João da Cruz,
lembra-nos que a esperança tem Deus como objeto, bem supremo do ser humano, como plenitude do tempo e como posse, e que é sempre aquilo que não se possui, porque se se possuísse, já não seria esperança.
Lembra-nos que o fundamento da esperança é sempre Jesus Cristo, onde se manifestou a bondade e o amor de Deus para todos.
Ajuda-nos a compreender que nem tudo acaba aqui e agora, e que o nada e o vazio não são o fim do caminho, mas que somos chamados à comunhão de vida com Deus. E para que a esperança seja inteiramente de Deus, «não deve haver nada na memória que não seja Deus».
Purifiquemo-nos, pois, do apego ao presente e ao passado, visto que «quanto mais a memória se despoja, tanto mais tem esperança, e quanto mais esperança tem, tanto mais tem união com Deus».
São João da Cruz,
que nos ensinas que «à tarde seremos examinados no amor», e que o amor «nos obriga a amar a Deus acima de todas as coisas», visto que «para este fim de amor fomos criados», ajuda-nos a viver a caridade e a compreender que o amor ao próximo cresce junto com o amor a Deus, e que o amor é «o vínculo e o laço da perfeição»; que «a compaixão pelo próximo cresce tanto quanto mais nos unimos a Deus», porque quanto mais amamos, mais desejamos que Deus seja de todos e por todos amado e honrado. Só a partir do amor – o mestre que nos conduz a Deus –, podemos confiar em encontrar a fonte cristalina de água viva, pura, eterna, de onde brotam a graça e a salvação.
Mestre do nada e da desnudez,
que nos ensinas que «não se pode chegar a esta união sem grande pureza, e que esta pureza não se alcança sem grande desnudez de todas as coisas criadas», ajuda-nos a compreender que entrar no caminho de Deus é abandonar os nossos caminhos e, partir sem cargas que pesem ou atrapalhem, pois só a desnudez une e transforma «o amado com a amada», e que a alma tem de «emagrecer», renunciando a muitas coisas do mundo, para ascender pelo caminho estreito, já que o amor às criaturas, ao temporal, ao passageiro e caduco, e o amor a Deus, são dois opostos que não cabem num sujeito. Somente quando a alma fica vazia de desejos, ambições, apetites, inquietações e cobiças, Deus a enche; quando nua e pobre, Deus a veste e enriquece; quando desapegada e desprendida, Deus a enche de infinitas graças.
Ensinamos a ouvir Deus no silêncio,
porque «uma palavra falou o Pai, que foi o seu Filho, e esta di-la sempre em eterno silêncio, e em silêncio deve ser ouvida pela alma».
Ensina-nos a perceber que as criaturas, a natureza, os acontecimentos da vida são como um rasto, uma pegada que nos fala e nos conduz a Deus, mas que não são palavra de Deus e que, quando nos fixamos só neles, longe de nos aproximar, nos afastam de Deus, visto que «eu não te conhecia, ó meu Senhor, porque desejava ainda conhecer e saborear coisas».
Ajuda-nos a compreender
que Cristo é um exemplo vivo de fé, de oferenda, de imolação da sua pessoa e aceitação da vontade do Pai. Ámen.



