Mensagem por ocasião dos 45 anos da fundação da Província Portuguesa de Nossa Senhora do Carmo dos Carmelitas Descalços

(1981–21 de maio–2026)

Querida Família dos Carmelitas Descalços:

Frades, Irmãs, Leigos-Seculares, estudantes das várias etapas formativas, jovens, membros dos Grupos de Oração Teresiana e Irmandades de Nossa Senhora do Carmo:

Convoco-vos a todos a celebrar, com profunda gratidão ao Senhor da criação e da história, os 45 anos da fundação da nossa Província Portuguesa de Nossa Senhora do Carmo, ereta a 21 de Maio de 1981. Esta efeméride é, sobretudo, um convite a contemplarmos com olhar confiado e crente o caminho percorrido em família, reconhecendo a fidelidade de Deus que conduz, sustenta e faz frutificar a vida daqueles que n’Ele confiam.

Foi, na verdade, no dia 21 de maio de 1981 que o Definitório Geral da nossa Ordem emanou, desde Roma, o decreto da ereção da Província Portuguesa de Nossa Senhora do Carmo. Oportunamente, este texto faz memória do percurso histórico da organização geográfica em solo luso do Carmelo Descalço, recordando que, já desde o século XVI, nós, Carmelitas Descalços, nos organizámos autonomamente, sob o nome de Província de São Filipe, constituída em 1588, tão-só seis anos após a morte de Santa Teresa de Jesus. Nas centúrias seguintes, o Carmo Descalço implementou-se notavelmente nos territórios do Reino e do Império português, vindo a constituir-se como Congregação Geral sob o nome da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo do Reino de Portugal, logo confirmada pelo Breve apostólico de 1772 e pela Constituição Apostólica Paterna Sedis do Papa Clemente XIV de 28 de abril de 1773.

A 30 de Maio de 1834, porém, as vicissitudes da história e a justiça dos homens, extinguiram «em Portugal, Algarve, Ilhas Adjacentes e Domínios Portugueses todos os Conventos, Mosteiros, Colégios, Hospícios e quaisquer Casas de Religiosos de todas as Ordens Regulares seja qual for a sua denominação» – obviamente também a nossa Congregação Geral, pelo que só no ano de 1928 foi restaurada a presença do Carmelo Descalço em solo português, cujo feliz centenário celebraremos em 2028.

E assim, após décadas de serena reimplementação da lusa Descalcez, foi constituído o Vicariato Regional afiliado à Província de São Joaquim de Navarra, vindo depois a reconstituir-se em província autónoma, de acordo com a vontade unânime dos Padres Capitulares da Província de São Joaquim de Navarra, desejo depois confirmado pelo Definitório Geral da nossa Ordem (Acta Ordinis Carmelitarum Discalceatorum, vol. 2, n.º 26, 1981).

Ao longo destas décadas, enquanto Província, o Carmelo Descalço em Portugal foi tecendo a sua peregrinação na fidelidade criativa ao carisma recebido das mãos de Santa Teresa de Jesus e de São João da Cruz, pelo que em contextos diversos, muitas vezes exigentes, frades, irmãs e leigos/seculares soubemos manter viva a chama da oração, cultivar a vida fraterna e oferecer à Igreja e ao mundo um testemunho humilde, mas fecundo, de interioridade e de comunhão com Deus. Celebrar, pois, quarenta e cinco anos de andadura, uma pequena etapa apenas, faz-nos assumir a memória agradecida por tantos irmãos e irmãs que nos precederam – conhecidos ou ocultos – cujo Sim generoso continua a sustentar o presente de cada um e o Sim de toda a nossa Província.

Esta memória histórica comum, porém, não se fecha sobre si mesma: abre-nos a todos para uma leitura espiritual do caminho feito, e do quanto, por

misericórdia de Deus, juntos, ainda haveremos de percorrer. Reconhecemos, humildemente, nesta hora, que no decurso dos dias e erguer dos levantes da aurora, o Senhor nos foi educando, purificando e conduzindo, chamando-nos sempre a regressar ao essencial: a centralidade de Deus, a amizade com Cristo, a escuta da sua Palavra e a docilidade ao Espírito. A nossa tradição carmelita é sempre pronta a recordar-nos que a verdadeira fecundidade apostólica nasce duma vida profundamente enraizada em Deus – é nessa e só nessa cristalina fonte que encontramos a nossa identidade e a razão do nosso serviço à Igreja e ao mundo.

Celebrar, então, este jubileu implica, também, renovar a consciência da nossa missão pastoral. Hoje, mais do que nunca, a Igreja e a sociedade portuguesas têm necessidade de homens e mulheres que testemunhem a primazia de Deus, que abram oásis de interioridade no meio da velocidade e da dispersão e que ofereçam espaços de silêncio, de oração e de escuta. Sim, como Família Carmelita, somos chamados a ser presença orante e profética, e sinais de esperança para o nosso tempo, ajudando tantos irmãos a descobrir que Deus habita no mais íntimo do coração humano.

Neste horizonte, todos somos interpelados – na diversidade de vocações e estados de vida que enriquecem o Carmelo – a assumir um compromisso renovado. Sim, todos os frades, irmãs e leigos/seculares, unidos no mesmo espírito, somos enviados a servir a Igreja e o mundo com disponibilidade, criatividade e sentido de comunhão fraterna. A nossa missão, porém, não se esgota no interior das nossas comunidades: abre-se e abre-nos para o encontro com as realidades humanas concretas, especialmente onde haja busca de sentido, onde campeie o sofrimento e a solidão e reverbere a sede de Deus.

Este aniversário é, assim, um tempo de graça que a todos nos desafia a reavivar o dom recebido: a aprofundar a vida de oração, a fortalecer os laços fraternos, a cuidar da formação e a discernir, com coragem evangélica, os caminhos que, propondo-nos insistentemente, o Senhor nos abre para o futuro. Aceitemos, portanto, que o caminho não se detém aqui, que somos chamados a continuar a escrever, com humildade e confiança, esta história rica de memórias e de companheiros de caminho, iniciada há 45 anos!

Cantemos, hoje, um Te Deum, irmãos, porque em nós e por nós o Senhor faz maravilhas! E sim, levantemo-nos, pois temos muito que andar!

Confiemos a nossa Província e toda a Família Carmelita em Portugal à maternal proteção de Nossa Senhora do Carmo. Que Ela nos ensine a guardar tudo no interior do coração, onde só Deus mora, a permanecer, sem vacilar, junto de Cristo e a servi-l’O com fidelidade alegre!

Que esta celebração reforce em todos nós o amor à vocação de Carmelitas Descalços e renove o nosso compromisso de ser, no coração da Igreja e no meio do mundo, testemunhas da presença de Deus!

Porto, 19 de Maio de 2026

P. Vasco Nuno Tavares da Costa
Provincial dos Carmelitas Descalços de Portugal