Cântico Espiritual (10)
Apaga o meu desgostoPois mais ninguém consegue desfazê-lo,E veja-Te o meu rostoQue és lume a acendê-loE apenas para Ti eu quero tê-lo!
Apaga o meu desgostoPois mais ninguém consegue desfazê-lo,E veja-Te o meu rostoQue és lume a acendê-loE apenas para Ti eu quero tê-lo!
Porquê, tendo chagadoA este coração, o não curaste?E, pois mo hás roubado,Porque assim o deixasteE não guardas o roubo que roubaste?
Mas como perseveras,Ó vida, não vivendo onde vives,Matando-te deverasAs flechas que recebesDaquilo que do Amado em ti concebes?
E todos quantos vagamDe Ti me vão mil graças relatando!E todos mais me chagamE mais me vai matandoUm não sei quê que ficam balbuciando!
Ai quem virá curar-me?Vem entregar-Te já, pois a Ti espero.Não queiras enviar-meMais nenhum mensageiroPorque dizer não sabem o que eu quero.
Mil graças derramandoPassou por estes soutos com pressuraE, assim os indo olhando,Com sua só figuraVestidos os deixou de formosura.
Ó bosques e espessurasPlantados pela mão do meu Amado!Ó prado de verdurasDe flores esmaltado,Dizei se Ele por vós terá passado!
Buscando os meus amores,Irei por esses montes e ribeiras;Não colherei as floresNem temerei as ferasE passarei os fortes e as fronteiras!
Pastores, se subirdesAlém pelas malhadas ao outeiroE porventura virdesAquele a quem mais quero,Dizei que sofro, peno e a morte espero!