Cântico Espiritual (23)
Sob a macieira entãoAli comigo foste desposada,Ali te dei a mãoE foste reparadaLá onde tua mãe foi violada.
Sob a macieira entãoAli comigo foste desposada,Ali te dei a mãoE foste reparadaLá onde tua mãe foi violada.
Pelas amenas lirasE canto de sereias vos conjuroQue cessem vossas irasE não toqueis no muroPara um sono da esposa mais seguro.
Esposo Às aves bem ligeiras,Leões, veados, gamos saltadores,Montes, vales, ribeiras,Águas, ventos, ardoresE receios das noites veladores.
Esconde-Te, ó Amado,Volta o teu rosto para as montanhas;Ficando-Te calado;Mas vê bem as companhasDa que se vai por ínsulas estranhas.
Ó ninfas da Judeia,Em tanto que das flores e rosaisO âmbar nos rodeia,Vivei nos arrabaisE não queirais tocar nossos umbrais!
Sê, Norte, um vento morto!Vem, Austro, que recordas os amores!Aspira por meu hortoDerrama teus odoresE pascerá o Amado entre as flores!
Caçai-nos as raposasQue está já florescida nossa vinhaEnquanto nós com rosasFazemos uma pinhaE ninguém deste monte se avizinha.
A noite sossegadaJá quando vem o anúncio da aurora,A música calada,A solidão sonora,A ceia que recreia e que enamora.
Esposa Meu Amado, as montanhas,Os vales solitários nemorosos,As ínsulas estranhas,Os rios rumorosos,O sibilo dos ventos amorosos.
Afasta-os, Amado,Que estou voando. Esposo Volta, minha pomba,Que, ferido, o veadoLá no outeiro assomaAo sopro do teu voo e o fresco toma.