Cântico Espiritual (31)
Naquele só cabeloQue em meu colo voando reparaste,Por no meu colo vê-loDele preso ficasteE num só dos meus olhos Te chagaste.
Naquele só cabeloQue em meu colo voando reparaste,Por no meu colo vê-loDele preso ficasteE num só dos meus olhos Te chagaste.
De flores e esmeraldasNas frescas madrugadas escolhidas,Faremos as grinaldasEm teu amor floridasE num cabelo meu entretecidas.
Se no prado floridoEu mais não for nem vista nem achada,Direis que me hei perdido,Que, andando enamorada,Me dera por perdida e fui ganhada.
Minha alma Lhe hei dadoE tudo o que era meu ao seu serviço.Não queirar já o gadoNem já tenho outro ofício,Pois é somente amar meu exercício.
Ali me deu seu peito,Ciência me ensinou mui saborosaE eu me dei de direitoSem Lhe negar mais cousa;Ali Lhe prometi ser sua esposa.
Na interior adegaDe meu Amado bebi, e quando saíaAo longo desta veiga,Já nada eu sabiaE meu gado perdi, que antes seguia.
Acorrem as donzelas,No encalço dos teus rastros, ao caminho;Ao toque de centelhas,Ao perfumado vinho,Emanações de bálsamo divino.
Esposa Nosso leito floridoCom grutas de leões entrelaçado,De púrpura tecido,De paz edificado,De mil escudos de oiro coroado.
Sob a macieira entãoAli comigo foste desposada,Ali te dei a mãoE foste reparadaLá onde tua mãe foi violada.
Pelas amenas lirasE canto de sereias vos conjuroQue cessem vossas irasE não toqueis no muroPara um sono da esposa mais seguro.