No passado fim de semana, de 3 a 5 de julho, os Grupos de Oração Teresiana (GOT) Ibéricos encontraram-se no Santuário do Menino Jesus de Praga, dos nossos Padres Carmelitas Descalços, em Avessadas. O tema deste encontro foi inspirado pelo Espírito Santo: «A Amizade em São João da Cruz.» Viemos dos quatro cantos da Península Ibérica: Madrid, Ávila e Vitória, de Espanha; Palmela, Setúbal, Lisboa, Guarda, Viseu, Gaia e Porto, de Portugal.
Nem o intenso calor, nem os longos caminhos, nem o cansaço de uma semana de trabalho nos impediram de ir ao encontro dos irmãos e irmãs, de São João da Cruz, ao encontro da Santíssima Trindade.
Na sexta-feira, depois de um pequeno debate sobre a amizade, viveu-se o momento do sorteio do amigo secreto, que iria acompanhar alguém através da sua oração e do envio de pequenas mensagens. Sentimos o valor da intercessão, do cuidar de alguém de forma gratuita, do estar presente e também do deixar-se cuidar.
Na manhã de sábado contamos com uma conferência dinamizada pelo Padre André Morais, subordinada ao tema «A Amizade em São João da Cruz». Percebemos como a amizade que São João da Cruz viveu com Cristo o transformou e o foi configurando com Jesus. João da Cruz assumiu na sua vida os critérios que Cristo assumiu na Sua vida, incluindo as amarguras, a pobreza e o cuidado dos doentes e dos mais frágeis – entre os quais Jesus Se esconde. João da Cruz arriscou tudo nesta relação de amizade com Cristo: deu-se totalmente a Cristo e Cristo deu-Se totalmente a João. Percebemos uma entrega mútua, em que João se torna semelhante ao Amado, pois é próprio do amor igualar a coisa amada (CE 28, 1).
Do Carmelo das Irmãs Carmelitas Descalças de Aveiro, Carmelo do Cristo Redentor, a Madre Sofia da Cruz levou-nos a conhecer uma exultante conspiração de santidade: a amizade espiritual entre Teresa de Jesus e São João da Cruz. Citando a Madre Sofia da Cruz:
«A relação entre Teresa de Jesus e João da Cruz é o exemplo máximo de amizade espiritual na história cristã: uma parceria de “fogo e luz” que mudou a Igreja. Embora tivessem personalidades opostas – ela, expansiva, comunicativa e prática; ele, silencioso, profundo e austero – a amizade deles baseava-se numa missão e visão mística comuns».
Nesta amizade espiritual, ambos tinham os olhos postos na Santíssima Trindade, tornando a amizade um espaço de encontro com Deus e de crescimento em santidade.
Os participantes de Espanha proporcionaram um momento de descontração, convívio e alegria, muito à maneira dos recreios teresianos. O calor humano, a amizade e os sorrisos abertos e espontâneos destronaram o calor abrasador do sol.
No fresco da noite fomos convidados a fazer um percurso orante com o tema «A caminho do nosso Santuário Interior», vivido na solidão acompanhada pela noite e pela discreta presença de Maria, de Santa Teresa de Jesus e da Santíssima Trindade. Fomos desafiados a permanecer em oração incessante, com a determinada determinação de fortalecer a nossa amizade com Quem sabemos que nos ama.
As cartas que São João da Cruz dirigiu a leigas, apresentadas na manhã de domingo por Dina Louro, ajudaram-nos a compreender a amizade espiritual, a humanidade e o cuidado que João manifestava no trato com o outro, bem como a forma leve e profundamente humana como exercia a sua direção espiritual. A relação que estabelece é espiritual, fraterna e paternal, fazendo nascer uma verdadeira filiação em Cristo. Cristo é sempre a origem desta amizade espiritual.
Geralmente, as cartas iniciam-se com um desejo de que Jesus esteja na alma de quem as recebe. Este desejo torna-se uma oração, um convite à interioridade e à contemplação: antes de qualquer preocupação, antes de qualquer aconselhamento ou inquietação, João recorda Quem habita a alma. A identidade de quem recebe a carta é definida pela presença de Cristo e não pelas suas angústias, provações ou circunstâncias da vida.
Nas suas cartas percebemos que Jesus está sempre no centro: no centro da relação de amizade e no centro da alma, onde acontece o encontro e a transformação. Ao colocar Cristo no centro, João da Cruz assume um papel secundário na direção espiritual, tornando-se um humilde mediador na condução da alma a Cristo.
Cristo ilumina esta relação de amizade, na qual João pede constantemente a oração mútua: pede orações de intercessão por si e por outros, ao mesmo tempo que promete a sua oração pelos seus dirigidos.
Outros elementos comuns nas cartas convidam a uma confiança absoluta na Providência Divina e à obediência confiante à Sua vontade. Há também um convite ao desprendimento dos apegos desordenados.
Observamos nestas cartas uma profunda preocupação pelo concreto da vida de cada dirigido, bem como a partilha da própria fragilidade e humanidade de João.
João da Cruz estima estas amizades e guarda cada pessoa no coração, diante de Deus. A amizade não é um fim em si mesma; é um espaço onde Cristo Se torna presente e conduz cada pessoa à união com Deus. A amizade espiritual é, assim, um caminho de santidade.
No final, levámos ainda connosco, de forma simbólica, uma caneca para podermos partilhar um chá, um café ou simplesmente um tempo com um amigo; uma caneta, que nos incita a escrever, a comunicar e a estar; e um pequeno bloco com frases de São João da Cruz, que nos recordam que podemos contar com a sua presença neste caminho de santidade tão fascinante, cheio de alegria e de desafios.
Que Jesus esteja na tua alma!


