[Que bem sei eu a
fonte]
Que bem sei eu a fonte
que mana e corre
mesmo de noite.
Aquela eterna fonte está
escondida,
mas eu bem sei onde tem
sua guarida,
mesmo de noite.
Sua origem não a sei,
pois não a tem,
mas sei que toda a origem
dela vem,
mesmo de noite.
Sei que não pode haver
coisa tão bela,
e que os céus e a terra
bebem dela,
mesmo de noite
Eu sei que nela o fundo
não se pode achar,
e que ninguém pode nela a
vau passar,
mesmo de noite.
Sua claridade nunca é
obscurecida,
e sei que toda a luz dela
é nascida,
mesmo de noite
Sei que tão caudalosas
são suas correntes,
que céus e infernos
regam, e as gentes,
mesmo de noite.
A corrente que desta
fonte vem
é forte e poderosa, eu
sei-o bem,
mesmo de noite.
A corrente que destas
duas procede,
sei que nenhuma delas a
precede,
mesmo de noite.
Aquela eterna fonte está
escondida
neste pão vivo para
dar-nos vida
mesmo de noite.
De lá está chamando as
criaturas,
que nela se saciam às
escuras,
porque é de noite.
Aquela viva fonte que
desejo,
neste pão de vida já a
vejo,
mesmo de noite.
(S. João da Cruz)