[Pai nosso que estais
nos céus]
Pai Nosso que estás nos
Céus...
Ó Filho de Deus e Senhor
meu!
Como dais tantos bens
juntos logo à primeira palavra? Já que Vós mesmo humilhais
com tão grande extremo até juntar-Vos connosco a pedir e
fazer-Vos irmão de coisa tão baixa e miserável, como é que
ainda nos dais em nome do Vosso Pai tudo o que se pode dar,
pois quereis nos tenha por filhos, e a Vossa palavra não
pode faltar? Assim O obrigais a cumpri-La, o que não é
pequeno encargo; pois, sendo Pai, nos há-de sofrer, por
graves que sejam as ofensas. Se tornamos a Ele como filho
pródigo, terá de perdoar, de nos consolar em nossos
trabalhos, de nos sustentar como fará um pai, que
forçosamente há-de ser melhor que todos os pais do mundo;
porque n'Ele não pode haver senão a perfeição de todo o bem
e, depois de tudo isto, fazer-nos participantes e herdeiros
conVosco.
E perdoai-nos, Senhor, as
nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem
ofendido... Caso é este, irmãs, para olharmos muito a ele;
uma coisa tão grave e de tanta importância como é o
perdoar-nos Nosso Senhor as nossas culpas que mereciam fogo
eterno, se nos perdoem com coisa tão pequena como é o nós
perdoarmos, e ainda destas pequenezes tenho tão pouco a
oferecer, que a troco de nada me haveis de perdoar, Senhor.
Aqui tem lugar a Vossa misericórdia.
Mas, quanto deve ser
estimado pelo Senhor este amar-nos uns aos outros! Jesus
teria podido apresentar outras coisas a Seu Pai, e dizer:
perdoai-nos, Senhor, porque fazemos muita penitência, ou
porque rezamos muito ou jejuamos, e deixámos tudo por Vós, e
Vos amamos muito. Também não disse: porque perderíamos por
Vós a vida; e, como digo, outras coisas que pudera alegar,
mas disse somente: porque perdoamos. Porventura o disse
porque, como nos conhece por tão amigos desta negra honra e
sabe que é a coisa mais difícil de alcançar de nós, viu ser
a mais agradável a Seu Pai e assim Lha oferece da nossa
parte.
S. Teresa de Jesus,
Caminho 27:2; 36:1-7
(Tradução livre)