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Ordem dos Padres Carmelitas Descalços em Portugal

   
 

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«O melhor teólogo
é aquele que sabe
explicar a teologia
como Jesus Cristo:
por meio de contos,
sem conceitos,
através da vida,
como fazia Jesus com
as suas parábolas
e com os acontecimentos
da vida quotidiana.
»

(Anthony de Mello)

 

Contos

Para que serve a Cruz?, conto

 

Era uma vez em que certa pessoa andava buscando o Senhor. Tinham-lhe falado de um convite que Ele a todos fazia para que entrassem no seu Reino onde, segundo se dizia, Ele tinha uma casa reservada para cada um dos seus amigos. E ele também tinha vontade de ser amigo do Senhor. E porque não? Não era verdade que outros o tinham conseguido? Que lhe impedia de conseguir ser dos seus amigos?

Averiguando acerca do paradeiro, inteirou-se de que o Senhor tinha ido para o monte com uma machadinha na mão, com a intenção de tudo preparar para que seus amigos tivesse d'Ele tudo o que precisassem para a viagem. E partir à sua procura. Os golpes duma machada guiaram-no até um matagal. Atravessou a clareira e meteu-se por entre rimas de canas e montículos de arbustos procurando chegar ao lugar donde lhe vinham os golpes. Os espinheiros agarravam-se-lhe à roupa e iam-no picando e as ramagens altas impediam a visão, mas como era decidido não conseguiram desanimá-lo.

Por fim chegou. E encontrou-se frente a frente com o próprio Senhor, o Nosso Senhor, que se ocupava em arranjar as cruzes para cada um dos seus amigos, visto que dentro em pouco partiria para sua casa a fim de preparar um lugar para cada um deles.

— Que fazes?, perguntou o jovem ao Senhor.

— Preparo para cada um dos meus amigos a cruz que terão de carregar para me seguir e assim poderem entrar no meu Reino.

— E eu também posso ser um dos teus amigos?, perguntou-lhe de novo o rapaz.

— Claro que sim!, respondeu-lhe Jesus. Eu estava mesmo à espera que me pedisses isso. Mas se queres ser meu amigo de verdade terás também tu de pegar numa cruz e seguir os meus passos. Pois eu tenho que ir caminhando à frente para vos preparar um lugar.

— E qual é a minha cruz, Senhor?

— Esta mesma que acabei de fazer. Sabendo que vinhas e sabendo que os obstáculos não te deteriam pus-me a preparar-te esta com todo o cuidado e carinho por ti.

A verdade é que ela não estava lá muito bem preparada. Na realidade eram dois troncos cortados com a machadinha; mas estes estavam mal cortados, por terminar e sem qualquer acabamento. As ramas dos troncos tinha sido cortadas de baixo para cima, pelo que ainda se podiam ver os restos mal cortados sobressaindo por todas as partes. Era uma cruz de madeira dura, bastante pesada, mas sobretudo muito mal acabada. Ao vê-la o jovem pensou que afinal o Senhor não se tinha esmerado muito na sua construção. Mas como tinha grande vontade em entrar no Reino decidiu carregá-la aos ombros, iniciando o longo caminho seguindo os passos do Mestre. Mal tinha carregado a cruz às costa apareceu Mbaé Pochy, o Diabo. Ele tem por costume aparecer nestas ocasiões. E naquela altura foi exactamente o que fez. Na verdade por onde anda Deus também se encontra o Diabo; sobretudo nos montes.

Foi pelas costas que o grito atingiu o jovem que já se tinha posto a caminhar:

— Ei, rapaz, esqueceste-te duma coisa!

Espantado por aquele grito o rapaz olho para trás e viu Mandinga muito comedido que se aproximava sorridente com a machadinha na mão para lha entregar.

— Não é possível!, respondeu-lhe meio chateado o rapaz. Então, ainda por cima tenho de levar a machadinha?

— Não sei, disse-lhe o Diabo fazendo-se de inocente. Mas parece que estou a ver que existe alguma conveniência em que a leves pois podes precisar dela pelo caminho. Além disso, seria uma pena deixar aqui perdida uma machadinha tão bonita!

A proposta pareceu razoável, enfim pareceu tão razoável que, sem pensar muito, pegou na machadinha e fez-se de novo ao caminho.

Duro caminho. Por várias razões. Primeiro, e sobretudo, por causa da solidão. Ele julgara que faria a viagem em companhia do Mestre. Mas na verdade Ele tinha-se ido embora e apenas havia deixado as pegadas. O pegar na cruz tem muito a ver com a solidão, e por vezes a ausência é o que mais dói na solidão, pois durante o caminho não se sente a Deus caminhando ao nosso lado. Parece até que Ele nos abandona. O caminho era duro ainda por outros motivos. A verdade é que não existia caminho. O mais que existiam eram pegadas montanha acima montanha abaixo, por entre silvas e giesteiras e por entre juncos e salgueiros. Naquele Inverno fazia muito frio e a cruz era muito pesada. Sobretudo, era muito incómoda por estar mal acabada. Parecia que os ramos mal cortados se empenhavam em enganchar-se a tudo que podia impedir de andar. E também se cravavam na pele para tornar a viagem mais custosa.

Certa noite, noite particularmente fria e cheia de solidão o rapaz parou um pouco num descampado para descansar. Descarregou a cruz para o chão e rapidamente se apercebeu da utilidade da machadinha. Talvez o Maligno, que o seguia disfarçado e às escondidas, tenha ajudado um pouco atirando-lhe com esta ideia através do brilho do ferro da machadinha...

O certo é que, tal como pensou assim o fez!, pôs-se a arranjar a cruz. Descansadamente e com vagar foi tirando um a um todos os nós que o aleijavam; cortando primeiro as ramas mal cortadas que tantos incómodos lhe estavam a dar durante o caminho. E conseguiu duas coisas. Conseguiu melhorar o madeiro. E conseguiu juntar um montinho de lenha que parecia pedir-lhe que acendesse uma pequena fogueira para aquecer as suas mãos tremelentes de frio.

Nessa noite dormiu tranquilamente. Na manhã seguinte reiniciou o caminho. E nas noites seguintes, noite após noite, a sua cruz foi melhorada, alindada, polida pelo trabalho que nela ia realizando. A verdade é que depois de nela se ocupar melhorando-a a cruz se tornava mais fácil de levar, e também conseguia ter lenha suficiente para a fogueirinha amiga de todas as noites. Quase, quase se sentiu agradecido a Mandinga que lhe tinha sugerido levar consigo a machadinha. Na realidade tinha sido uma boa ideia e uma grande sorte contar com aquele instrumento que lhe permitia trabalhar a sua cruz.

Estava muito satisfeito com o seu trabalho, e até sentia um orgulho especial na sua obra de arte. A cruz tinha agora um trabalho razoável e um peso muito menor. E até se tratava de um trabalho cuidadoso e que exigira algum cuidado. À luz, bem polida, brilhava sob os raios de sol e já quase não lhe custava carregá-la aos ombros. Encurtando-a um pouco ela poderia finalmente ser levada apenas numa mão levantada (como se fosse um estandarte) permitindo assim identificar-se diante dos outros homens como seguidor do Crucificado. E até — pensou — se lhe dessem tempo, conseguiria perfeiçoá-la de tal maneira que presa por uma voltinha a colocaria ao peito como um adorno, para alegria de Deus e testemunho perante os outros.

E alcançou a sua meta. Melhor as suas metas. Pois que quando chegou às muralhas do Reino deu-se conta que graças ao seu trabalho vinha descansado e até podia apresentar uma cruz muito bonita, o que certamente poderia ficar como recordação no Museu da Casa do Pai.Porém, nem tudo foi assim tão simples. O certo é que a porta de entrada no Reino estava colocada bem no alto da muralha. Tratava-se duma porta estreita, aberta, parecida a uma janela, embora a uma altura impossível de atingir. Chamou gritando, anunciando com voz forte a sua chegada. E desde o alto apareceu o Senhor convidando-o a entrar.

— Mas, como, Senhor? Como posso entrar? Não posso, pois a porta está demasiado alta e eu não a consigo alcançar.

— Apoia a tua cruz contra a muralha e depois trepa por ela acima utilizando-a como escada, respondeu-Lhe Jesus. Pois foi de propósito que eu deixei os nós dos galhos para que eles te ajudassem. Além disso, a cruz que te dei tem o tamanho certo para que possas chegar até à entrada.

Foi nesse momento que o jovem se deu conta de que realmente a cruz que tinha recebido tinha sentido e que o Senhor a tinha preparado bem e com todo o cuidado. Mas agora era demasiado tarde. A sua cruz pequenina, polida, brilhante, aperfeiçoada, parecia-lhe agora um boneco inútil. De facto era uma cruz lindíssima, mas não o ajudava a entrar no Reino. Afinal, Mandinga tinha sido um mau conselheiro e um amigo ainda pior. O Senhor, porém, é bondoso e compassivo. Ele não conseguia ignorar a boa vontade do rapaz e a sua generosidade em O querer seguir. Deu-lhe por isso um conselho e uma nova oportunidade. E disse ao jovem:

— Volta para trás sobre as tuas pegadas. Encontrarás seguramente no caminho alguém que já não pode mais e que se encontra caído debaixo do peso da cruz. Ajuda-o a trazer a cruz. Desta maneira conseguirás que ele percorra o seu caminho e chegue até aqui. Quando chegardes ele te ajudará a entrares no meu Reino para poderes gozar do lugar que eu te preparei.

M.Menapace

 


 

 

 
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